6. GERAL 5.6.12

1. ESPORTE  EU VOU, MAS EU VOLTO!
2. GENTE
3. ESPECIAL  UMA VIDA DEDICADA  VERDADE
4. ESPECIAL  MEMRIAS DE UM EDITOR
5. AVENTURA  DAS ONDAS PARA O TOPO DO MUNDO
6. PERFIL  NINA E AS MENINAS
7. ARTIGO  J.R. GUZZO  O ENIGMA DAS ELITES
8. PALEONTOLOGIA  O LEITE NAS CAVERNAS
9. RELIGIO  O RECADO EST DADO

1. ESPORTE  EU VOU, MAS EU VOLTO!
O Santos foi criticado por vender Neymar a um preo abaixo do imaginado  mas  bom lembrar da mquina de bons negcios gerados pelo craque de cabelos espevitados em trs inesquecveis anos.
ALEXANDRE SALVADOR E OTVIO CABRAL

Vamos embora?", perguntou Neymar  me, Nadine, na casa de sua famlia no Guaruj, na madrugada do ltimo sbado, 25. Ele acabara de decidir que trocaria Santos por Barcelona, o alvinegro pelo azul e gren catalo. Para onde voc quiser ir, meu filho, eu vou", ela respondeu. Os dois, acompanhados do pai do craque, Neymar da Silva Santos, se abraaram e choraram. No dia seguinte, em uma das paredes do vestirio do clube que o descobriu para o futebol, o camisa 11 seguiria o canto do exlio. Com pontuao surpreendente como seus dribles, tudo um pouco fora do lugar, reticncias e aspas deslocadas, sem concesso ao bom portugus, ele anotou: "Eu vou mas... "eu volto!". Neymar sabia, talvez desde o incio de sua carreira profissional, que o caminho da Europa seria inevitvel. Havia o argumento do imperativo tcnico (enfrentar zagueiros mais fortes) e a presso financeira (como no ceder  tentao dos euros, mesmo de um pas praticamente falido como a Espanha?). Ele deixa o Brasil aos 21 anos  Ronaldo Fenmeno saiu aos 17. Neymar, portanto, demorou para sair, e sai justamente quando o Brasil se prepara para sediar a Copa do Mundo. Mas era mesmo inexorvel.
     A diretoria do Santos foi quase heroica, ao segurar Neymar desde 2010, quando ele estourou como sucessor de Pel (veja o artigo de Roberto Pompeu de Toledo na pg. 134). H trs meses, foi discutida a possibilidade de se estender o vnculo com o clube praiano por mais dois anos, at 2016, com a incluso de uma participao ainda maior do atleta no valor recebido por uma eventual venda. O pai do jogador, que decide sua vida profissional, recusou a proposta. No havia mais o que fazer. Recentemente, Neymar pai e filho reuniram-se na residncia do presidente do Santos, Luis lvaro de Oliveira Ribeiro. O dirigente queria entender as intenes do prprio jogador. "Se ele dissesse que era hora de partir, buscaramos a proposta que melhor atendesse aos interesses do clube. E foi o que aconteceu", revelou Luis lvaro. Deu-se, ento, a construo de uma intrincada engenharia monetria com o Barcelona. O valor da venda foi de 18 milhes de euros, apurou a reportagem de VEJA com os profissionais que participaram da transao  e no 28 milhes, como se divulgou amplamente. Por trs desse valor, contudo, h muito mais (veja o Quadro abaixo). 
 rodada final de negociaes, chegaram a proposta do Barcelona e uma outra, do Real Madrid. A oferta do clube de Madri, algo em torno de 150 milhes de euros, foi um pouco maior que os 143 milhes de euros do pacote costurado com o Barcelona, incluindo o salrio do jogador. O que compensou a diferena em dinheiro foi a vontade de Neymar de vestir a camisa catal. O brasileiro nunca escondeu o desconforto com a derrota do Santos por 4 a 0 para o Barcelona, na final do Mundial de 2011. "Tomamos uma aula de futebol", diz Neymar. O caminho mais adequado, portanto, seria juntar-se aos professores. 
     Os dirigentes santistas foram criticados por ter demorado em demasia para vender Neymar  e, ao faz-lo, aceitaram baixar os valores, j que em 2014, ao final do contrato, todo o dinheiro da venda ficaria com o jogador, e nada com o clube.  uma viso mope. O Santos ganhou muito com Neymar, muito mais que a Libertadores de 2011, depois de 48 anos do bicampeonato de 1963. Deu-se a reconquista da imagem de um time simptico, goleador e vencedor, como nos tempos de Pel. As cifras so eloquentes. O faturamento do clube saltou de 70 milhes de reais em 2009, ano de estreia de Neymar no profissional, para 200 milhes no ano passado. Mesmo com a oitava maior torcida do pas, em 2012 o clube teve a segunda maior receita com patrocnios do Brasil, perdendo apenas para o Corinthians. "O Santos tem hoje o canal de vdeos de clube de futebol na internet mais visto da Amrica Latina", diz Amir Somoggi, consultor de gesto esportiva. "Um tero de sua audincia vem do exterior." 
     Pgina virada, o Santos busca reduzir os danos de um vazio estrondoso. Neymar, por sua vez, olha para a frente  sabendo que no meio do caminho tem a Copa das Confederaes e a Copa do Mundo. Afinal, o que ser dele na Europa? "O Neymar vai crescer no Barcelona, tcnica e fisicamente", diz o coordenador da seleo brasileira,  Carlos Alberto Parreira. "Possivelmente, ele vai aparecer menos na imprensa e se concentrar mais no futebol." Os riscos de fracasso so nfimos. "Neymar vai entrar como um coadjuvante, afinal, o nvel dos atletas l no  como os daqui. Ele no vai se destacar to facilmente em um time com Messi, Iniesta e Xavi", vaticina Tosto, tricampeo do mundo com a seleo de 1970, arguto observador das coisas do futebol. "Claro que h armadilhas, mas  uma parceria que tem tudo para dar certo, e uma deciso que vai mudar a vida dele." 

O NEGCIO QUE LEVOU O CRAQUE PARA O BARCELONA

A VENDA
O valor pago ao Santos ficou bem abaixo da multa rescisria de 65 milhes de euros estipulada no contrato do atacante.
Valor 18 milhes de euros.
O time ainda ter de dividir a quantia com outros investidores:
TERCEIRA ESTRELA INVESTIMENTOS S/A (TEISA) 5%
GRUPO DIS 40%
SANTOS 55%

O EXTRA DO CLUBE
O Santos conseguiu negociar valores suplementares, alm do contrato oficial
17 milhes de euros por:
 Dois jogos amistosos  um no Brasil e outro na Espanha  contra o clube catalo com renda e direitos de TV revertidos para o Santos
 Venda da preferncia da compra de, pelo menos, trs promessas do clube

A BOLADA PARA NEYMAR
SALRIO:  9,6 milhes de euros por ano (descontados os impostos)
BNUS: 60 milhes de euros (luvas que sero pagas em parcelas, ao longo dos cinco anos)
PUBLICIDADE: Neymar ainda deve faturar mais porque o Barcelona no cobra uma porcentagem dos contratos publicitrios, ao contrrio do Santos e do Real Madrid, time que tambm estava atrs do jogador.

PARTICIPAO EM CONTRATOS PUBLICITRIOS
Barcelona ZERO
Santos 10%
Real Madrid 30% a 70%

AS MAIORES TRANSAES DO FUTEBOL BRASILEIRO PARA O EXTERIOR
Se considerado somente o valor oficial da compra, a venda de Neymar no figura nem entre os cinco maiores valores pagos por um time estrangeiro por um jogador brasileiro.

1 LUCAS
ANO: 2012
ORIGEM: So Paulo
DESTINO: Paris Saint-Germain
VALOR (em euros): 40 milhes

2 OSCAR
ANO: 2012
ORIGEM: Internacional
DESTINO: Chelsea
VALOR (em euros): 32 milhes

3 DENILSON
ANO: 1998
ORIGEM: So Paulo
DESTINO: Betis
VALOR (em euros): 31,5 milhes

4 ROBINHO
ANO: 2005
ORIGEM: Santos
DESTINO: Real Madrid
VALOR (em euros): 24 milhes

5 ALEXANDRE PATO
ANO: 2007
ORIGEM: Internacional
DESTINO: Milan
VALOR (em euros): 22 milhes

8 NEYMAR
ANO: 2013
ORIGEM: Santos
DESTINO: Barcelona
VALOR (em euros): 18 milhes

COM REPORTAGEM DE CAU MARQUES E RENATA LUCCHESI


2. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Thais Botelho

FIOS E DESAFIOS
Que mente tortuosa pensaria em tocar num s fio da flamejante cabeleira de MARINA RUY BARBOSA? A de um novelista, claro. Confiante no talento e na coragem da jovem atriz, Walcyr Carrasco, o autor de Amor  Vida, sondou-a sobre a possibilidade de mexer justamente na sua caracterstica mais conhecida. A personagem Nicole, que estreou semana passada na novela, ter uma doena grave. "Walcyr falou que ela poder ter de raspar o cabelo", conta Marina. Para encarnar a personagem, Marina acaba de perder a inscrio para a faculdade de cinema. De presente de 18 anos, no fim de junho, pediu ao pai "um carro grande". De presente para o resto da humanidade, aparece em intocada ruivice na capa da revista NOVA.

UMAS COISINHAS A MENOS
Alm de ser linda, modelo e negra, e estar saindo com o magnata russo VLADIMIR DORONIN, 50, o que a americana JAZZMA KENDRICK, 23, tem a ver com a inglesa dispensada NAOMI CAMPBELL, 43?  desbocada e fala o que vem  cabea. Um perigo em dobro na era da disseminao instantnea de besteiras. "No estou com Vlad e no fao programa", afirmou pelo Twitter. A primeira parte j foi desmentida por fotos do casal em clima de intimidade. At o ano passado, Jazzma se apresentava como hostess das boates "mais quentes de Miami". Aos que desconfiam da cinturinha que no existe na natureza, Jazzma diz que s gente maluca  e gorda  levantaria a hiptese de que ela tirou um par de costelas. Se um dia cruzar com Naomi...

A STELLA SOBE
Ela foi eleita a estilista do ano na Inglaterra, recebeu a Ordem do Imprio Britnico das mos da rainha Elizabeth II e criou alguns dos modelos mais copiados dos ltimos tempos, incluindo o vestido que "emagrece" por iluso de tica. STELLA MCCARTNEY tem quatro filhos,  uma vegetariana radical que fuma e acredita em fazer o bem.  reprter Marlia Leoni, falou: 

 possvel um meio-termo entre carssimos produtos de luxo e modinha de baixa qualidade? 
Eu no fabrico em alguns pases e, por isso, meu preo no  baixo como o de marcas populares. Acredito em qualidade, em produtos que podem ser passados a geraes. Mas tambm temos produtos com preos mdios. 

A divulgao instantnea no tornou obsoletos os caros e exclusivos desfiles de moda? 
J me questionei muitas vezes sobre isso. Muitos que tentaram inovar saram e depois voltaram aos desfiles. Os desfiles so bons por causa cobertura, por atrair compradores e porque vemos a reao emocional e imediata s roupas. 

Como uma estilista que nem sequer usa couro acha que falta tica  indstria que retomou at as peles de animais? 
Acredito em tomar posies em relao ao que  eticamente correto. Mais de 50 milhes de animais so abatidos anualmente em nome da moda.  triste, mas os responsveis parecem no ligar para isso. 

Ainda aguenta perguntas sobre seu pai? O que de mais importante aprendeu com ele? 
Aprendi com minha me e meu pai a s fazer o que gostaria que fizessem comigo. Prefiro legar alguma coisa que tenha impacto positivo quando no estiver mais aqui a simplesmente fazer dinheiro. 

ELA TEM PRESENA
Fs da funkeira ANITTA, 20, preparem-se. Seu prximo show ter "um helicptero no palco, porque o tema  a guerra contra aqueles que querem acabar com os sonhos de Anitta". O uso da terceira pessoa e os arroubos cenogrficos (vinte danarinas, trs mudanas de cenrio e uma mquina de fumaa "igual  da Rihanna") do uma pista das ambies da carioca Anitta, nascida Larissa, criada cantando em coral de igreja e a caminho da fama por causa de msicas como Meiga e Abusada, que est na novela das 9. "Fao teatro, tenho dois figurinistas e fonoaudiloga", diz Anitta, que virou a sensao de festas de riquinhos no Rio. "Se o pblico  AAA, canto Los Hermanos e Tim Maia."


3. ESPECIAL  UMA VIDA DEDICADA  VERDADE
O criador de VEJA deixa um legado de comprometimento, paixo, racionalidade, luta pela liberdade e a lio de que ser assim e ainda manter a elegncia e o humor  essencial.
EURPEDES ALCNTARA

Como voc consegue ser ao mesmo tempo editor e empresrio?" Esta deve ter sido a pergunta que Roberto Civita mais ouviu. Se no, com certeza, foi a que mais lhe agradava responder. "No sou ao mesmo tempo jornalista e empresrio. Quando entro na redao de VEJA para nossa reunio semanal sou editor. Quando piso de volta no elevador reencarno o empresrio. Essa transmutao exige uma dura disciplina mental. No conheo ningum que seja capaz de fazer a mesma coisa." Esse era o RC, como era chamado fora da VEJA. Aqui ele era o Roberto, embora de vez em quando desse a entender que preferia o "'doutor" antes do nome. Nesses momentos, raros, rarssimos, para sermos justos, ele demarcava territrio. Afinal era o patro, o homem que pagava os salrios, o sujeito no topo da cadeia alimentar. Mas logo a disciplina mental se reinstalava e o jornalista Roberto punha o empresrio para fora da redao. Roberto morreu no domingo passado, 26, em So Paulo, s vsperas do 45 aniversrio da revista que ele criou e nutriu. Ele sucumbiu s complicaes advindas da implantao de uma prtese para corrigir um aneurisma da aorta. Roberto Civita tinha 76 anos. 
     Ruim de datas, ele adorava coincidncias. Nas nossas conversas ficaria sabendo que Albert Einstein, o gnio da teoria da relatividade, tambm morreu aos 76 anos do mesmo mal, a ruptura de um aneurisma na aorta. Saberia que Henry Luce, o grande editor de revistas dos Estados Unidos, cujas qualidades de jornalista ele admirava sem restries, morreu no 44 aniversrio da Time. Deve haver um limite no formalmente estabelecido entre 44 e 45 anos para que os criadores de revistas convivam com suas criaturas. Roberto costumava discutir o encaminhamento das matrias principais de VEJA, mas nunca pedia para ler uma reportagem antes de sua publicao. No entanto,  quase impossvel escrever sobre ele sem imaginar quais seriam seus comentrios  que ele fazia na maior sem-cerimnia baseado no princpio de que "at editores precisam de editores". Ele se movia por princpios. Alguns aprendidos com o pai, Victor Civita, como este: "Nunca faa parcerias com 50% para cada lado. Como muitos casamentos provam, isso no d certo". Outros eram releitura de preceitos de jornalistas, pensadores, poetas e escritores: "A democracia no  o melhor sistema poltico que existe, apenas  melhor do que todos os outros.  um empreendimento moral e espiritual cuja base material  o livre mercado e seu corolrio, a liberdade de expresso". 
     Como provam as mensagens em sua homenagem recebidas na semana passada, das quais publicamos apenas algumas nesta reportagem. Roberto Civita tocou, influenciou, formou, comoveu e, claro, contrariou muita gente. Ficaria satisfeito ao ver nos tributos prestados que eles so fruto de uma das qualidades que mais exigia de suas revistas, a de provocar reaes, de no deixar o leitor indiferente. "Sob o seu comando, a Editora Abril consolidou-se como uma referncia", escreveu a presidente Dilma Rousseff, que conversou com Maria Antonia, mulher de Roberto, na noite de domingo. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, cuja amizade com Roberto Civita precede sua entrada na poltica, lembrou que o amigo "nunca deixou de criticar". Jos Serra, ex-governador de So Paulo, descreveu Roberto Civita como "um emblema da liberdade de expresso, da imprensa independente, da pluralidade de ideias e da tolerncia". Lus Frias, presidente do Grupo Folha, via nele "a mais sofisticada combinao de empresrio e editor". Para Marta Suplicy, ministra da Cultura. Roberto Civita foi um "homem complexo e obstinado". 
     "Fascinante!", diria Roberto sobre como as pessoas o enxergavam. Ele tinha perfeita conscincia do seu papel, estava confortvel no mundo e, enquanto tivesse perguntas a fazer e gente interessante para responder, continuaria a tirar sua cadernetinha do bolso e a anotar ideias de reportagem, frases, nmeros, conceitos. Dizia que esse hbito nascera da necessidade de compensar a memria muito falvel. Periodicamente a caderneta era entregue s secretrias, que passavam o contedo  registrado em uma caligrafia rebuscada mas altamente legvel, pela regularidade  para um programa de computador feito especialmente para ele. Milhares de fichas sobre grandes  e pequenos  homens de seu tempo esto armazenadas no seu computador pessoal. So mais do que instantneos de cada encontro. Graas  disciplina e  obstinao de Roberto, as notas so matria viva, elas revelam que as pessoas mudam, danam conforme a msica de seu tempo. O empresrio que lutara pela abertura do mercado brasileiro h trinta anos reaparece protecionista tempos depois. O poderoso coberto de elogios por ulicos no auge de seu reinado ressurge nas anotaes em meio s crticas mais duras ao descer do pedestal. 
     "A espcie humana nunca decepciona", dizia Roberto, em uma das poucas searas onde ele permitia que seu inquebrantvel otimismo desse lugar a um contido desprezo pelo prximo. Mesmo assim, esse "algo contemptor dos homens" que ele lera em Machado de Assis, seu escritor brasileiro predileto, era expresso de uma maneira teatral, distante, s para no decepcionar o interlocutor, como se falar mal ou duvidar de algum fosse uma atitude esperada de um homem na posio dele. "Fidarsi  bene, ma non fidarsi  meglio ", lembrava sempre o ditado italiano, muito mais para reavivar o esprito de crtica dos jornalistas. "Costumo acreditar no que me contam, at prova em contrrio", admitia. Com exceo dos polticos, como se ver. Tinha fama de saber ouvir, mas era altamente seletivo. Parte de seu fascnio era lanar um olhar perdido no horizonte, parecendo alerta, mas j estando completamente sintonizado em outra frequncia. Fascinante! 
     Trabalhar com Roberto era to melhor quanto mais complicada a crise. Ele crescia nos momentos crticos. Ficava mais calmo, mais centrado e mais focado. Exigia dos editores de VEJA apenas que seu trabalho expressasse a "busca honesta da verdade". Nunca demonstrou a pretenso de que a atividade jornalstica substitusse as instituies e se contentava que nas pginas da revista estivesse registrado com a qualidade possvel "um primeiro rascunho da histria", expresso atribuda a Philip Graham, lendrio editor do Washington POST. Nas inmeras situaes em que ele foi confrontado com o dilema de acreditar no que VEJA escrevera ou na verso de algum personagem poderoso que tentava desmentir a revista, sua primeira reao sempre foi manifestar a certeza de que estvamos corretos. Se ele tinha confiana no processo de apurao, na cultura de verificar e obter provas de cada afirmao que a redao desenvolvera, no haveria razo para duvidar do resultado. 
     "Os jornalistas no levam nenhuma vantagem em mentir. Isso acaba logo ou abrevia a carreira deles. J os polticos so treinados para mentir, isso  natural e aceito como um meio de evoluir no negcio deles", dizia Roberto. "Ento existe sempre a probabilidade de que um jornalista nosso, bem selecionado, bem treinado e bem pago, esteja com a maior parte da verdade." Roberto tinha conversas dificlimas com polticos, empresrios, artistas famosos que se consideravam atingidos por reportagens de suas revistas. A todos eles perguntava candidamente: "Mas o que escrevemos  verdade?". Esse era seu compromisso  esse  seu maior legado. Escreva a verdade, narre o fato, pois os fatos so teimosos. Dizia ele: "Aos crticos nunca  demais repetir que no criamos os fatos, no inventamos a natureza humana, no somos deuses com o poder de alterar o curso dos acontecimentos". Ou seja, a verdadeira fonte da influncia de VEJA so os fatos revelados pelos seus jornalistas. Se no existissem os fatos, aquele primeiro rascunho da histria seria apenas um pedao de papel pintado. 
     E os males da imprensa? Roberto os enxergava como manifestaes do que h de pior no mundo. Ele dizia: "Os males a evitar na imprensa so a impreciso, a arrogncia, a parcialidade, o desprezo pela privacidade, a insensibilidade, a glorificao do bizarro, trivial e banal". Isso no significava para ele esterilizar as revistas, torn-las meros boletins informativos, cheias de mensagens positivas e exemplos de vida a ser seguidos. No. Roberto acreditava que "assunto srio  assunto tratado de maneira sria". Ou seja, por mais banal que possa parecer determinado assunto, ele tem potencial jornalstico se existir gente interessada nele e se o jornalista for capaz de satisfazer a curiosidade e surpreender a audincia. No extremo oposto esto assuntos importantes em que o desafio do jornalista  torn-los interessantes. Dizia Roberto: "Algum capaz de explicar e manter a ateno do leitor em assuntos rduos como o Oramento do pas ou o ciclo da malria  algum que tem valor inestimvel". 
     A revoluo digital pegou-o de surpresa. Ele no aceitava a tese de que a mudana de paradigma sobre como a informao  transmitida altera sua percepo de valor. "Na era da informao no podemos deixar de lado a fundamental importncia da verdade, da honestidade, da objetividade, da solidariedade." Sua racionalidade objetiva lhe dizia intimamente que, sendo esses valores os pilares bsicos da civilizao, uma vez que eles nos trouxeram at aqui, no faria nenhum sentido que fossem abandonados justamente no momento culminante da caminhada evolutiva da humanidade. 
     Claramente ele ficava inconformado com o fato de que nenhuma das grandes editoras estrangeiras, especialmente as que ele admirava  com cujos lderes mantinha um dilogo constante , tivesse ainda encontrado um modelo de negcio sustentvel para transpor suas queridas revistas para a internet. O sucesso de VEJA nos tablets, no entanto, mitigava um pouco a sensao de que talvez, finalmente, ele no tivesse mais respostas  altura dos desafios que sua carreira editorial lhe apresentava. Seria algo inteiramente indito na sua vida de imensas conquistas e de transformao da palavra impossvel em um verbete sem utilidade no dicionrio. Aos amigos ele dizia que se confortava com a ideia de que o desafio digital era coisa para seus filhos. Mas, no fundo, ainda lutava para encontrar uma soluo, estudava, contratava consultorias, conversava com especialistas. Essa era sua filosofia. Nunca desista. Quando se aprende com ele, o erro  apenas uma parada no caminho do acerto. Erre melhor da prxima vez. A democracia  uma conquista, mas exige manuteno. A liberdade de expresso e a educao so irms gmeas e uma no se sustenta sem a outra. Leia na reportagem seguinte, nas prprias palavras de Roberto Civita, as razes de seu invencvel otimismo com o Brasil  "um fascinante, exasperante e bendito pas!". 

"Lamento a morte do empresrio Roberto Civita. Sob o seu comando, a Editora Abril consolidou-se como uma referncia. Neste momento de tristeza, envio meu abrao solidrio para sua mulher, Maria Antonia, seus filhos e amigos." Dilma Rousseff, presidente da Repblica. 

"Estamos em um momento difcil no Brasil. Estive agora na missa (de stimo dia) do Ruy Mesquita (diretor do jornal O Estado de S. Paulo, falecido no ltimo dia 21), e agora o velrio do Roberto Civita. So dois gigantes. Pessoas que tm dignidade, noo da importncia da imprensa e responsabilidade  e isso faz falta para a democracia. Apesar da nossa relao pessoal, Roberto nunca deixou de criticar. Ele vai fazer muita falta, mas espero que a organizao sobreviva bem." Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da Repblica.

"Roberto Civita fez a diferena, com simplicidade, transparncia e protagonismo, aliados a um forte senso de responsabilidade pelo presente e pelo futuro do pas." Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna.

"Com Roberto Civita a democracia seguiu o rumo da transparncia e da decncia. Nossos sentimentos  famlia Civita e aos que integram o Grupo Abril." Valdir Raupp, presidente nacional do PMDB. 

"Vai nos fazer muita falta a partida de Roberto Civita. Era to claro quanto direto e conciso. Ideologicamente, era um expoente na defesa da economia de mercado e no culto  liberdade de imprensa em plenitude. No que estava certo." Carlos Ayres Britto, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. 

''Cosmopolita, por sua biografia e inclinao pessoal, Roberto Civita mostrou-se de grande importncia para a formao do brasileiro contemporneo  cidado plural, sensvel ao que se passa no mundo. O devotamento  informao e  formao de cada leitor revela-se como seu grande legado para o desenvolvimento do jornalismo nacional e para a consolidao do esprito crtico brasileiro." Antonio Patriota, ministro de Relaes Exteriores. 

"O Roberto Civita era uma pessoa absolutamente dedicada  liberdade de expresso. Vai ficar como um exemplo para o jornalismo brasileiro." Miro Teixeira, deputado federal e ex-ministro das Comunicaes.

"Roberto Civita deu uma contribuio inestimvel  imprensa brasileira. Empreendedor, era otimista em relao ao Brasil. Foi editor de revistas que se consagraram pela qualidade e pelo compromisso com a informao e a liberdade. Era um homem afvel, inteligente, de convices, dedicado inteiramente ao seu ofcio. Deixa uma grande lacuna na imprensa brasileira." Edison Lobo, ministro de Minas e Energia. 

"A contribuio de Roberto Civita  educao, aos mais variados campos do conhecimento humano e  imprensa brasileira  marcante, inestimvel e continuar sendo referncia as futuras geraes. Sob sua inspirao, publicaes como REALIDADE e VEJA traaram um diagnstico to profundo do Brasil que se tornaram, por si mesmas, indissociveis de nossa histria, essenciais  luta em defesa da liberdade de expresso e da democracia." Marcus Vincius Furtado, presidente nacional da Ordem dos advogados do Brasil (OAB).

"Com a morte do Dr. Roberto Civita, o Brasil perde no apenas um grande jornalista e editor, como tambm um dos maiores empreendedores do setor de comunicao do pas em todos os tempos. Civita deixa tambm um importante legado na educao, em especial pelas aes em prol da qualidade do ensino." Antonio Anastasia, governador de Minas Gerais

''Sob sua inspirao, o fim de semana passou a ser referncia nacional com a publicao de revistas como VEJA, com amplo impacto na sociedade brasileira." Michel Temer, vice-presidente da Repblica

"Durante dcadas, tive o privilgio de manter um excelente relacionamento com Roberto Civita e acompanhar de perto o importante trabalho realizado para o fortalecimento da democracia e da imprensa brasileira. Francisco Dornelles, senador

"Um homem que constituiu o mais complexo e rico sistema de revistas do pas, que jamais ser igualado. O Brasil perde um grande homem e um grande educador." Fernando Gabeira, jornalista e ex-deputado federal

"Era um homem admirvel pela sua cultura, pela sua viso dos problemas e ousadia." Alberto Goldman, vice-presidente nacional do PSDB

"Roberto Civita deu uma contribuio extraordinria como editor, jornalista e lder do maior grupo empresarial de revistas e tantas publicaes, em especial VEJA e EXAME." Eduardo Suplicy, senador (PT-SP)

"Fiel a seus princpios, foi fundamental para a redemocratizao e para o crescimento do pas. Foi um grande jornalista, empreendedor e, acima de tudo, um amigo querido.  importante que seus legados na tica, na conduta jornalstica e na defesa da livre-iniciativa e da liberdade de expresso inspirem novos jornalistas e empreendedores." Ablio Diniz, empresrio

"A Editora Abril, sob o seu comando, criou e consolidou veculos de comunicao importantes para o pas." Aguinaldo Ribeiro, ministro das Cidades

"O Brasil perde um grande jornalista, que fez do Grupo Abril um dos conglomerados de comunicao mais importantes da Amrica Latina." Rodrigo Rollemberg, lder do PSB no Senado

"O Grupo Abril, que edita VEJA entre outras tantas revistas de grande sucesso, muitas delas criadas pessoalmente por Roberto Civita, perde um grande editor, e o Brasil, um de seus mais corajosos jornalistas." Paulo Skaf, presidente da Federao das Indstrias do Estado de So Paulo (Fiesp)

"Ouvi de Roberto Civita que o jornalismo no pode se submeter a peias de nenhuma espcie, nem do estado, nem dos prprios interesses econmicos das empresas jornalsticas. O Brasil ficou mais pobre sem ele." Aloysio Nunes, lder do PSDB no Senado

"Sua liderana e trabalho fizeram com que o Grupo Abril se consolidasse como o maior grupo editorial brasileiro, sinnimo de liberdade de expresso por toda a Amrica Latina." Marcial Portela, presidente do Santander Brasil.

"Sua busca por excelncia e pela verdade e sua incansvel determinao para defender a independncia do jornalismo contriburam de maneira indelvel para a construo de uma sociedade mais justa e democrtica." Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro

"Mesmo os que discordam de suas posies no podem desconsidera seu protagonismo na histria recente do pas." Jos Eduardo Cardozo, ministro da Justia

"Todos ns, homens e mulheres deste pas que cultivam o apreo pela informao de qualidade e a defesa intransigente da liberdade de imprensa, ficamos inconsolveis neste 26 de maio. Obrigada, Roberto, por sua inestimvel participao na construo da democracia e pelo imenso e valoroso legado que nos deixa." Ktia Abreu, senadora e presidente da Confederao da Agricultura e Pecuria do Brasil (CNA)

"Meu pesar pelo passamento de Roberto Civita. Sei que todos que conviveram com ele no dia a dia foram admiradores de sua tenacidade em defesa das liberdades democrticas, da liberdade de imprensa, da liberdade econmica e em defesa do contribuinte  bandeiras que sempre nos identificaram." Guilherme Afif Domingos, vice-governador de So Paulo e ministro da Micro e Pequena Empresa

"Com publicaes como VEJA, e seu posicionamento vigoroso em defesa das grandes causas da sociedade, Roberto Civita ajudou a tornar o Brasil um pas mais aberto e mais plural," Eduardo Campos, governador de Pernambuco

"Roberto Civita tinha a percepo ntida do fato poltico e do que mais importava ao interesse pblico, ao interesse nacional. Roberto Civita nunca se omitiu. As pginas de VEJA sempre foram palco para o debate das grandes questes do estado, postas em trabalhos jornalsticos capazes de serem entendidos por todos. Roberto Civita, cidado exemplar e cujo exemplo frutificar." Carlos Velloso, ex-presidente do STF

"Roberto Civita foi um pioneiro e um inovador na mdia brasileira. Era um grande publisher e um grande jornalista. No s fazia como amava a arte do jornalismo, noticiando, mas afirmando ideias, intransigente em suas convices. Sabia o preo da liberdade, devoto da iniciativa privada e da educao. Um lder de uma dimenso singular. Perde a imprensa, perde o pas." Jos Sarney, ex-presidente da Repblica e senador

"Ele marcou a histria do jornalismo com seu esprito crtico e inovador." Pedro Simon, senador "

"A cidade de So Paulo lamenta a perda de Roberto Civita, que marcou sua vida pelo empreendedorismo e pelo compromisso com a educao." Fernando Haddad, prefeito de So Paulo

"Civita foi um grande defensor da liberdade de expresso e da educao como motores do desenvolvimento sustentvel do Brasil. Estamos certos de que o exemplo de liderana, pioneirismo e viso de longo prazo de Roberto Civita continuar guiando a trajetria de sucesso do Grupo Abril." Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comit Olmpico Brasileiro

"Roberto Civita marcou a sua trajetria pelo amor ao jornalismo e pela gesto," Srgio Cabral, governador do Rio de Janeiro

"Roberto Civita foi um dos mais extraordinrios homens que conheci. Defensor intransigente da democracia, amava como poucos o Brasil. Roberto viveu e morreu sem perder a capacidade de sonhar. Seu sonho era ver o Brasil investindo na educao de qualidade para que pudssemos construir um futuro melhor. O Brasil perde um idealista e eu perco um amigo querido." Senador Acio Neves, presidente nacional do PSDB

"Roberto Civita foi um democrata por convico e um empreendedor por natureza. Sua incessante busca pela liberdade de imprensa e compromissos com o Brasil tornaram a Editora Abril, sob sua direo, um dos maiores conglomerados de informao da Amrica Latina. Tenho convico de que seus herdeiros e sucessores sabero multiplicar seus compromissos com a liberdade de expresso." Renan Calheiros, presidente do Senado Federal

"Como empresrio e empreendedor, foi um entusiasta do Brasil e seu potencial. Como editor, um apaixonado pelo contedo de suas publicaes. Seus ttulos so relevantes e influentes na economia, na poltica e no comportamento social." Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente executivo do Bradesco

"O Brasil deve muito a ele." Henrique Eduardo Alves, presidente da Cmara dos Deputados

"Foi uma triste notcia. Perdi um bom amigo, alm de um timo scio quando tivemos negcios em Portugal. Roberto era um homem que tinha grande paixo pelo jornalismo. Um lutador pelo jornalismo de qualidade e, por isso, um homem de muita coragem." Francisco Pinto Balsemo, jornalista, empresrio e ex-primeiro-ministro de Portugal (1981 a 1983)

"Mais que um brilhante empresrio e competente jornalista, o Brasil perdeu neste domingo um dos mais criativos e realizadores homens de mdia." Samuel Moreira, presidente da Assembleia Legislativa do estado de So Paulo

"Esse brasileiro de corao sempre colocou o leitor em primeiro lugar em suas publicaes. Far falta pela sua viso humanista e inovadora." Robson Braga de Andrade, presidente da Confederao Nacional da Indstria (CNI)

"Roberto foi uma das pessoas mais interessantes que eu j conheci. Foi um mentor para vrias geraes de jornalistas no Brasil. Nossos editores sul-africanos o admiraram muito mais do que me admiram. Ele entendeu perfeitamente o papel de um editor como profeta e professor da nao. Sentiremos muito a falta de nosso parceiro" Koos Bekker, CEO do Naspers, o maior grupo de mdia do continente africano e parceiro da Abril

"Civita foi um empreendedor  frente do seu tempo, um exemplo de coragem e de cidado comprometido com nosso pas." Deputado Carlos Sampaio, lder do PSDB na Cmara dos Deputados

"Mantivemos uma amizade de muitas dcadas, que sempre resistiu s diferenas (frequentes) de opinio. Foi uma figura fundamental na histria da imprensa brasileira." Mrcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justia

"Roberto Civita era um homem de coragem e de vanguarda. Tinha amor pelo Brasil, obsesso pela verdade e crena inabalvel na liberdade de imprensa. Ao idealizar e criar publicaes como VEJA, a maior revista de informao semanal fora dos Estados Unidos, deu uma contribuio inestimvel  construo da democracia brasileira." Geraldo Alckmin, governador de So Paulo

"Alm do esprito empreendedor, o criador da revista VEJA marcou seu projeto editorial com a fora do pluralismo das ideias, e estar exposto a pontos de vista contraditrios  condio essencial da nossa vida democrtica." Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Casa Civil

"Seu legado tambm permanece por sua decisiva contribuio no Conselho do Instituto Coca-Cola Brasil, organizao que ele ajudou a consolidar e direcionar graas a sua viso" Brian Smith, presidente da Coca-Cola Amrica Latina Xiemar Zarara, presidente da Coca-Cola Brasil

"Roberto Civita  um emblema da liberdade de expresso, da imprensa independente, da pluralidade de ideias e da tolerncia. Tinha coragem moral, ousadia empresarial e grande capacidade para o dilogo. Foi um notvel jornalista e um interlocutor generoso, tanto para ouvir como para expressar os seus pontos de vista. Tinha uma slida cultura humanista e uma curiosidade incurvel. Isso tudo fazia dele um homem destemido, dono de uma conversa agradvel, marcada sempre pelo vis da esperana. Deixa uma obra imensa, que  vital para a democracia, as liberdades pblicas e o estado de direito no Brasil. Roberto integra a galeria dos homens que no morrem, porque no trabalham apenas para si mesmos; so pessoas que sonham futuros e vivem para sempre na memria dos que as amavam e na obra que deixaram." Jos Serra, ex-governador de So Paulo

"Jornalista corajoso e de convices claras, a fora de suas ideias e a coragem de suas opinies deixam seguidores que so um patrimnio da democracia brasileira," Jos Agripino Maia, presidente nacional do DEM

"Roberto Civita olhava com paixo para o jornalismo e a educao. Ele construiu um negcio extraordinrio em tempos desafiadores.  um legado s geraes futuras. Roberto tambm foi um amigo especial, algum que tocou vidas e que fez muitas amizades ao redor do mundo." Christie Hefner, ex-presidente da Playboy Enterprises

"Ele era um editor de corao, para quem a razo de existir de um artigo no  a histria propriamente dita, mas o valor e o interesse dela para os seus leitores." Jan V. White, consultor de design editorial

"Com sua defesa intransigente da liberdade de opinio, fez de suas revistas um instrumento de luta por um Brasil melhor, sempre na defesa do estado de direito, na busca de um sistema educacional eficiente e na remoo de obstculos  ao modernizante da livre-iniciativa." Gilberto Kassab, ex-prefeito de So Paulo

"Roberto Civita era um homem  frente de seu tempo, que nutria um profundo amor pelo Brasil e uma crena inabalvel na verdade e na democracia." Deputado Duarte Nogueira, presidente do PSDB-SP

Roberto foi um gigante do jornalismo cuja influncia se espalhou pelo planeta. Ele terminou um breve perodo de trabalho na Time determinado a voltar para o Brasil para desenvolver a empresa que herdou e criar uma equivalente brasileira da revista. Fez isso e muito mais, tornando-se certamente o Henry Luce do Brasil ao longo do caminho. Construiu um imprio que dominou a indstria editorial brasileira sem deixar de ser o editor dos editores. Norman Pearlstine, ex-editor-chefe da Time, chefe de contedo da Bloomberg

"O Brasil perdeu um de seus grandes campees. Ele pegou uma pequena companhia de revistas que foi fundada pelo seu pai e a transformou em um grande imprio de revistas e um tesouro para o Brasil. Sentiremos sua falta." Leonard A. Lauder, presidente emrito da The Este Lauder Companies Inc., um dos principais fabricantes e comerciantes mundiais de cosmticos

"Roberto era um grande empresrio, com viso de jornalista. Fez a Abril crescer e se tornar to importante para o Brasil. Era muito inteligente e tinha um grande senso de humor." Andrea Matarazzo, ex-secretrio estadual e vereador de So Paulo

"Roberto Civita foi uma lenda no mundo editorial, dentro e fora do Brasil. Ele fez uma grande diferena para muita gente. Eu o admiro pela sua dignidade, inteligncia, seu respeito por aqueles que o rodeavam e por sua contribuio  educao no Brasil. A sua morte significa que o mundo fica um pouco mais escuro." Peter A. Kreisky, fundador e presidente da empresa de consultoria Kreisky

 "Ele era uma das minhas pessoas preferidas no mundo das publicaes. Foi um grande visionrio, era um ser humano maravilhoso e divertido. Ns compartilhvamos o mesmo amor pelo jornalismo. Vou sentir muito sua falta." Ann Moore, presidente da Time Inc.

"Ele era um homem maravilhoso. Eu o conheci quando era publisher do USA Today. Ele era um apaixonado pela mdia impressa e conduziu a sua empresa com grande integridade e viso sobre o futuro." Cathleen Black, ex-presidente da Hearst Magazines 

"Um homem que se mostrou lutador, que lutou pela preservao de expresso e pela democracia. Contribuiu muito para o engrandecimento na da democracia." Marco Aurlio Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal 

Hoje  um dia triste para o Brasil, que perde uma de suas grandes lideranas; a Itlia tambm est de luto. Raffaele Trombetta, embaixador da Itlia

Estou arrasada. Ele era um homem que defendia a democracia, a integridade, a transparncia." Regina Duarte, atriz

Uma luz significativa partiu deste mundo! Ele no morreu realmente, pois vive nos atos de bondade que realizou e nos coraes daqueles que nutrem sua memria. John Lavine, professor e diretor da Universidade Northwestern

"Roberto Civita deu uma contribuio mpar ao jornalismo brasileiro. Com esprito inventivo, soube ver que no Brasil havia espao para inovao no campo das revistas e, entre muitos ttulos, brindou os leitores com VEJA e EXAME, que fizeram e fazem histria em nosso pas. Foi um defensor intransigente da liberdade de expresso, jamais deixando de advertir que sem ela no h cidadania plena. Deixa o legado de um jornalismo independente, inteligente e a servio do pblico, como deve ser.  famlia, neste momento de tristeza, nossa solidariedade." Roberto Irineu Marinho, presidente das Organizaes Globo

Deixa um legado para a histria do jornalismo e para a cultura brasileira. Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras

Ele queria transformar a educao para melhor. Claudia Costin, secretria municipal de educao do Rio de Janeiro

[descrio da imagem: rvore, smbolo da ABRIL, com um lao de fita preta, colocado por Cebolinha e Mnica] Homenagem de Mauricio de Sousa Produes a roberto Civita

"Roberto Civita contribuiu com deciso e coragem para o restabelecimento da democracia em nosso pas. Embora sua morte represente uma dolorosa perda, ele nos deixa o triunfo da liberdade de expresso, pela qual tanto lutou." Juca de Oliveira, ator e dramaturgo

"Eu lamento muito. Ele foi uma pessoa maravilhosa, que enriqueceu muitas vidas, incluindo as nossas." Thomas E. Lovejoy, membro do Centro Heinz para a Cincia e professor da Universidade George Mason, nos Estados Unidos

"Perde a democracia. Perde o bom jornalismo. Perde o Brasil." Luciano Huck, apresentador

"Roberto Civita foi a mais sofisticada combinao de empresrio e editor que eu conheci." Lus Frias, presidente do Grupo Folha

"A educao para ele era a prioridade mxima no Brasil. Estou profundamente triste.  uma perda imensa para todos ns." Maria Helena Guimares, ex-presidente do Inep e ex-secretria de Educao de So Paulo

"Roberto Civita foi um lder nico no jornalismo, cujo impacto e ideias se espalharam para muito alm do Grupo Abril e do Brasil." David Klatell, diretor de estudos internacionais da Faculdade de Jornalismo da Universidade Colmbia, nos Estados Unidos

"Roberto era um inovador, um renovador. Transformava sua aventura em realidade." J Soares, apresentador de TV


4. ESPECIAL  MEMRIAS DE UM EDITOR
Histrias e reflexes de Roberto Civita sobre sua formao, suas ideias, sua trajetria e seu grande orgulho: ter feito sempre aquilo que mais gostava de fazer.
CARLOS MARANHO

H cerca de um ano, Roberto Civita decidiu que chegara o momento de registrar suas memrias. "Mas no vai ser fcil, porque tenho problema com datas. S sei o ano em que nasci, o ano em que meu pai e minha me nasceram, mais ou menos o ano em que nasceram meus trs filhos, o dia do aniversrio de minha esposa e o dia, o ms e o ano do lanamento de VEJA", explicou. Em uma nica frase ele cita as seis pessoas que mais amava na vida  e a mais importante revista que criou, pela qual lutou durante os primeiros anos para que sobrevivesse, enfrentando pesados prejuzos financeiros e a sanha da censura, at ajudar a transform-la no segundo maior semanrio de informaes do mundo e  qual imprimiu, desde o incio, uma linha editorial em defesa da democracia, da liberdade de expresso, da livre-iniciativa, da educao e do progresso do Brasil. Apesar de duvidar de sua memria para datas, ele lembrou-se com exatido de muitas outras ocasies, enquanto contava sua histria, ao longo de oito encontros. O ltimo deles ocorreu s vsperas da internao hospitalar  qual no sobreviveria. Foram dezesseis horas de depoimento gravado. Este  um resumo das memrias que ele no pde concluir.

AMAR O QUE SE FAZ - Deixei registradas em uma agenda de capa preta, em outubro de 2006, contendo vrias anotaes para um futuro livro de memrias, estas reflexes que resumem minha histria profissional: "Se voc consegue fazer as coisas que ama e as faz bem e se diverte com elas e tambm  reconhecido, admirado (e invejado) e ainda por cima ganha dinheiro com isso, voc  verdadeiramente abenoado. Eu tenho sido". 
PRIMEIRA LEMBRANA - A recordao mais remota que tenho  de um domingo, 7 de dezembro de 1941. Meus pais, meus avs paternos e eu, um menino de 5 anos, estvamos sentados na varanda da casa que a famlia alugara em um subrbio de Nova York. Todos ouviam um concerto pelo rdio da Orquestra Sinfnica da NBC, dirigida por Arturo Toscanini. De repente, interrompem a transmisso para informar que a base de Pearl Harbor havia sido bombardeada e que os Estados Unidos declaravam guerra ao Japo. Todos ficaram abalados. Claro que no entendi o significado. Mas foi o primeiro fato jornalstico que entrava na minha vida. Aquele momento ficou marcado dentro de mim para sempre. 
ORIGEM - Nasci em Milo, no dia 9 de agosto de 1936, um domingo muito quente do vero italiano, e me naturalizei brasileiro em 1967. Minha me, Sylvana Alcorso, era de Roma. Meu pai, Victor Civita, nasceu em Nova York, porque meu av passava temporadas nos Estados Unidos para cuidar de seus negcios de importao, mas viveu grande parte de sua vida na Itlia. Quando eu tinha 2 anos, eles decidiram sair do pas temerosos das leis raciais da ditadura fascista de Benito Mussolini. Fomos morar em Paris e, depois, passamos um perodo em Londres, onde nasceu meu irmo, Richard. 
NOME - J fizeram uma certa confuso com meu nome. Minha me tinha um irmo caula chamado Franco, que morreu de plio, aos 12 anos. Era o seu xod. Em homenagem a ele, fui registrado como Roberto Franco Civita. Mas eu nunca usei esse nome do meio. Quando viemos para o Brasil, na imigrao de Santos, grafaram meu nome errado e virei Robert. Houve anos e anos de trabalho jurdico, junto a cartrios, at que restabeleceram a grafia original e ganhei meu "o" de volta. 
COLEO DE PALAVRAS - A lngua de casa era o italiano. Quando cheguei a Londres, no entendi nada do que falavam. Isso me marcou muito e, antes mesmo de me alfabetizar, decidi dominar o ingls. Como tem gente que coleciona borboletas, eu comecei a colecionar palavras em ingls. Preenchi inmeros cadernos de cada palavra que aprendia. E lia, lia sem parar, desde criana. At quando devia estar dormindo. Minha me entrava no quarto e me encontrava embaixo da coberta, com um livro e uma lanterna. "Roby, est na hora de dormir", ela me dizia. Minha me me chamou de Roby at o fim da vida. 
LNGUA PORTUGUESA - Foi a ltima que aprendi, depois do italiano, do ingls, do francs e do espanhol, estas duas graas a uma governanta e uma bab. Ao chegar aqui, deixei de lado a coleo de palavras inglesas e iniciei a de portugus. Sou apaixonado pela lngua portuguesa. Ao lado de minha mesa de trabalho, fica aberta em um pedestal uma edio do Aurlio. Eu a consulto o tempo inteiro. No papel, no no computador. Tenho dezenas e dezenas de dicionrios, no escritrio, em casa, na praia, em todo lugar. Minha obsesso  a palavra exata, que defina exatamente o que voc quer dizer. A palavra mal utilizada e a frase mal construda me deixam bastante incomodado. E-mail com erro me irrita. Hoje em dia, as pessoas esto escrevendo de forma muito descuidada. Eu no mando nenhuma mensagem sem reler.  um respeito com o destinatrio, da mesma forma que um texto jornalstico bem escrito e editado com cuidado  um respeito com o leitor. 
O RAIO E O VAGA-LUME - Alis, aprendi h muito tempo lendo MarkTwain que "the difference between the almost right word and the right word is the difference between the lightning bug and the lightning". Ou seja, a diferena entre a palavra exata e a palavra quase exata  a mesma diferena que existe entre o vaga-lume e o raio. 
CHEGADA AO BRASIL - Durante a II Guerra, o irmo mais velho de meu pai, Csar Civita, estabeleceu-se em Buenos Aires, onde montou a Editorial Abril. Em 1949, ele props a VC, como meu pai seria sempre chamado, que fizesse uma editora no Brasil. VC ficou espantado com a sugesto e a princpio descartou a ideia. Mas, pela insistncia de Csar, acabou vindo conhecer o pas. Teve uma m impresso do Rio de Janeiro e resolveu vir ver como era So Paulo. "No perca seu tempo", foi o que ouviu. "Aquilo  uma provncia. No tem grfica, no tem revista, no tem jornalista, no tem nada." Mas ele veio. So Paulo tinha 2 milhes de habitantes, uma grande parte descendente de italianos. Meu pai ficou encantado. Foi um caso de amor  primeira vista. Minha me, meu irmo e eu estvamos em Nova York. Um dia, voltando da escola, a encontramos sentada na entrada do nosso apartamento na Rua 86, a meio quarteiro do Central Park. Estava com uma carta manuscrita na mo e em estado de choque. E ela nos disse: "Vostro padre  impazzito", seu pai enlouqueceu. "Ele est falando nesta carta que vamos viver no Brasil e que eu devo vender o apartamento, chamar uma empresa de mudana, encaixotar tudo, comprar um carro para usarmos l..." Chegamos no Carnaval de 1950. Naquele mesmo ano, VC fundou a Editora Abril e lanou a revista O PATO DONALD. 
SORTE - Acredito que o destino de cada um comea a ser traado por fatores que no dependem de ns. O primeiro so seus pais. Onde voc nasce. Quando. Em que lugar do mundo. Onde vai estudar. H muita gente inteligente, talentosa, que poderia brilhar em qualquer campo mas jamais teve a oportunidade nem foi beneficiada por fatores imponderveis como esses. Por tudo isso, considero-me uma pessoa de sorte. A comear pela deciso de meu pai de vir para o Brasil. 
DA FSICA AO JORNALISMO - Estudei fsica nuclear durante um ano, a partir de meados de 1953, na Universidade Rice, no Texas. Apesar de gostar muito, descobri que seria um fsico medocre. Ento desisti. Fui aceito pela Universidade da Pensilvnia, na qual cursei ao mesmo tempo jornalismo e administrao. Com uma vontade louca de aprender, tive aulas paralelas de literatura grega, sociologia, demografia, estudos bblicos e muitas outras matrias. Mas onde eu mais aprendi foi na Time Inc., durante o perodo de um ano e meio que passei na empresa, em Nova York, como estagirio, aps um rigorosssimo processo de seleo, assim que me formei. Conheci Life, Sports Illustrated e Fortune. Trabalhei em todos os setores da Time, j ento o maior semanrio de informaes do mundo. Todos mesmo, da apurao de reportagens  edio final de texto, da operao de assinaturas  venda de publicidade. Fui de caminho, na madrugada, a pequenas cidades de Massachusetts para acompanhar a entrega de revistas nas bancas e na casa dos assinantes. Quando terminou esse perodo de estgio, convidaram-me para trabalhar em Tquio como o nmero 2 da sucursal da revista. 
MUDAR O MUNDO - A proposta da Time me deixou alucinado. Liguei para meu pai e falei que estava felicssimo por ter uma oportunidade nica como aquela. Para minha decepo, ele me desencorajou: "No acha que est na hora de voltar para casa e trabalhar numa coisa sua? Vamos conversar melhor aqui em So Paulo. Estou lhe mandando uma passagem". Ainda perplexo com sua reao, embarquei num Constellation, avio quadrimotor a pisto anterior  era dos jatos. A viagem de Nova York para c durava cerca de vinte horas, com vrias escalas. No caminho, tomei a deciso: iria mesmo para Tquio. Quando cheguei, VC discordou de mim. "O que voc quer fazer, mudar o mundo?", ele perguntou. Respondi que sim. Eu queria de fato mudar o mundo. "No Hemisfrio Norte voc no vai conseguir. A concorrncia  muito grande. Aqui h tudo por fazer e voc ter uma alavanca bem maior." Passei uma noite sem dormir e no dia seguinte apresentei minhas condies. Eu voltaria para So Paulo desde que pudesse fazer trs revistas: uma de negcios, como a Fortune, que seria a futura EXAME; a edio brasileira da Playboy; e uma semanal inspirada na Time, que seria a VEJA. Estvamos em 1958, com Braslia em construo, a implantao da indstria automobilstica e o surgimento da bossa nova. A Abril, alm das publicaes em quadrinhos da Disney, expandia-se com o sucesso das revistas de fotonovela. CAPRICHO, a maior delas, vendia cerca de 500.000 exemplares. TIO PATINHAS, outro tanto. "Ainda no estamos prontos", afirmou VC diante do meu pedido. "Mas vamos continuar crescendo. Logo que tivermos condies, faremos essas trs revistas. E vrias outras." Percebi que, aos 22 anos, eu tinha um universo para desbravar. Minha resposta para VC no poderia ser outra: "Diga a mame que vou voltar para casa". P
RIMEIRO EMPREGO - Entrei na Abril como vendedor de anncios, registrado em carteira. Hoje carrego com orgulho o crach nmero 1 da empresa. Meu salrio bruto era de 14.000 cruzeiros, o equivalente em 2013 a cerca de 3300 reais, segundo calcularam recentemente. A empresa funcionava no 9 andar do prdio nmero 118 da Rua Joo Adolfo, no centro de So Paulo. Eu vivia na rua, porque precisava visitar as agncias de publicidade e convenc-las a anunciar em nossas revistas. Era difcil. Elas no acreditavam nos nmeros da circulao  nossa e dos concorrentes , pois no havia critrios para comprov-los. Isso mudou quando propus s agncias J.W. Thompson e McCann-Erickson a criao de uma entidade independente para auditar a circulao de jornais e revistas, como existia nos Estados Unidos. Nasceria da o Instituto Verificador de Circulao, o IVC. No meio publicitrio, de brincadeira, porque as iniciais eram as mesmas, diziam que se tratava do "Instituto Victor Civita". O IVC foi fundamental para estabelecer critrios mensurveis na veiculao de anncios e, nesse sentido, para o sucesso das revistas da Abril, cujas altas tiragens e vendas puderam ser cientificamente comprovadas. 
SEM BALOZINHO - No incio, eu trabalhei como gerente de publicidade de MANEQUIM. Era, como hoje, uma revista de moda, para a leitora interessada em fazer sua prpria roupa. Foi nossa primeira revista sem balozinho, recurso grfico indispensvel nos quadrinhos e nas fotonovelas. 
FORA DA NATUREZA - O Brasil estava se desenvolvendo e tnhamos condies de fazer coisas novas. Era um momento especial. Soubemos aproveit-lo para crescer. Principalmente porque havia VC. Meu pai era uma fora da natureza. Um homem fantstico. Ousado, intuitivo, charmoso, conquistador, corajoso. Voc no fabrica muitos desses todos os dias. 
COMO UM FILHO - A partir de 1960, com QUATRO RODAS, comeamos a fazer novas revistas. Nos vinte anos seguintes, eu me meti diretamente em todos os nossos lanamentos, tanto revistas como fascculos. Ajudei cada uma delas a nascer, como se fosse um filho.  um pouco como brincar de Deus, criando algo que no existia. 
O SEGUNDO MAPA - Lembro como surgiu a ideia de criar QUATRO RODAS, nossa primeira revista jornalstica, ou seja, com reportagens, matria de capa, servio e muita informao. Durante um almoo comigo e com o meu pai no restaurante do Hotel Claridge, que ficava ao lado do prdio da Abril, um diretor da Volkswagen perguntou por que no tnhamos uma revista sobre automveis. "Porque eu nunca havia pensado nisso", disse meu pai. "Ento pensem, porque se vocs fizerem eu garanto trs pginas de publicidade por ms durante o primeiro ano", afirmou o homem da Volks. Na mesma hora, VC virou-se para mim: "Roberto, trate de ver se d para fazer". Achamos que dava e convidamos para ser seu diretor o jornalista Mino Carta. Ele no sabia dirigir carro, nem tinha a menor ideia do que era um automvel, mas tratava-se de um bom profissional. A revista teria um mapa encartado em forma de folder. Resolvemos estrear com uma grande reportagem de servio e um mapa da Via Dutra, a principal estrada brasileira, que nem era duplicada naquele tempo. Mino e eu pegamos uma Kombi, eu ao volante, e percorremos os 400 quilmetros de So Paulo ao Rio de Janeiro, parando em todos os restaurantes, bares, postos de gasolina, borracharias e o que fosse, anotando a localizao, caractersticas, se era bom, se era ruim. Na volta, fizemos o percurso inverso, O mapa foi um sucesso. Resolvemos que todo ms publicaramos um. S havia um problema: alm da Dutra, praticamente no existiam estradas no Brasil. Mas os mapas continuaram saindo. Foi uma loucura. Felizmente, ramos jovens e acreditvamos que tudo seria possvel. Muitos anos depois, numa conversa com o jornalista J.R. Guzzo, recordei esse fato e comentei que, quando fomos fazer VEJA, tampouco tnhamos condies para tanto, "Pois , mas no sabamos e por isso fizemos", ele respondeu. 
RECEITAS E TEMPEROS - Com QUATRO RODAS, comeou um grande momento para a Abril. Um ano depois, em 1961, lanamos CLAUDIA. Meus pais escolheram como ttulo da nova revista o nome que dariam  filha que nunca tiveram. Ela  um marco para a Abril e para a imprensa brasileira. Mais de meio sculo depois, CLAUDIA continua sendo a lder do mercado entre as publicaes femininas. E por qu? Pelo cuidado, pela competncia, pelo carinho com que  feita, desde que foi dirigida por Lus Carta, irmo de Mino, e depois por Thomaz Souto Corra. Suas receitas, por exemplo, foram testadas, uma a uma, a partir do nmero 1, com medidas brasileiras e ingredientes que podem ser encontrados no pas inteiro. E havia uma colunista chamada Carmen da Silva, que se tornou pioneira em falar sobre os direitos da mulher e do papel que ela passou a desempenhar no mercado de trabalho, sem deixar de ser me e esposa. Carmen foi simplesmente revolucionria com sua coluna "A arte de ser mulher", que publicou de 1963 at morrer, em 1985. Com tanta gente competente cuidando de CLAUDIA, minha participao na revista foi pequena. Minha me, sim, sempre se envolveu. Fazia questo de aprovar todas as receitas, que por exigncia dela, e de meu pai tambm, no podiam ter cebola nem alho entre os ingredientes. Eles abominavam alho e cebola. Durante anos e anos, esse temperos no entravam nas receitas. E nem no restaurante da diretoria da empresa. 

MISTURA - Somos uma empresa cosmopolita desde nossa origem, uma mistura saudvel de cultura que  a essncia de So Paulo, a cidade escolhida por meu pai para viver e construir a Abril. Ele comeou e eu continuei contratando profissionais de origem italiana, francesa, inglesa, sria, libanesa, japonesa, espanhola, judaica, egpcia  e, claro, brasileiros de todas as regies. Essa diversidade de talentos, que soubemos recrutar e manter, est na alma da nossa empresa e ajuda a explicar o que ela iria se tornar, ganhando de todas as outras editoras de revistas do Brasil, vendendo mais do que os concorrentes somados. Como se fazia isso? Como se faz hoje? Fazamos, e continuamos fazendo, em cada segmento, as revistas com melhor contedo, mais inteligncia, mais originalidade, mais relevncia e mais credibilidade do pas. Isso s se consegue com profissionais da maior qualidade. 
A REVOLUO DOS FASCCULOS - Para ns, o dia 18 de maio de 1965, quando foi para as bancas o primeiro fascculo de "A Bblia mais bela do mundo",  uma data histrica. Comeava ali uma revoluo no mercado editorial brasileiro. Foi mais uma ideia de VC, que comprou os direitos na Itlia, onde os fascculos faziam grande sucesso. Aqui, era uma coisa completamente desconhecida. VC apresentou o projeto numa reunio de nossa diretoria. Todos foram contra, inclusive eu. Achvamos que ningum iria  banca toda semana, durante meses e meses, para comprar uma coleo em fascculos, que depois precisariam ser encadernados. Ele ouviu nossa opinio e tomou a deciso sozinho, como acionista majoritrio: "Pois vamos fazer". E eu fui encarregado de tocar o projeto. A obra original tinha ilustraes primorosas e timo papel, mas havia uma dificuldade: as tradues que existiam para o portugus eram ruins, quase ilegveis. Fizemos ento nossa prpria traduo, encomendada a um grupo de padres brasileiros, muito eruditos, que estavam estudando em Jerusalm. Para o lanamento, preparamos uma grande campanha de publicidade, veiculada na TV, em jornais, em outdoors e em nossas revistas, para explicar o que era um fascculo  algo que ningum conhecia no Brasil. Foi um xito estrondoso. Depois da "Bblia", vieram as colees de arte, de filosofia, de economia, enciclopdias, medicina e sade, culinria, clssicos da literatura ricamente encadernados e com primorosa edio de texto, discos de msica clssica, pera, jazz, msica popular brasileira e muito, muito mais. Somando tudo, entre 1965 e o fim dos anos 80 publicamos 151 colees completas de fascculos. O xito foi tanto que criamos outra empresa, a Abril Cultural, que depois deu lugar  CLC, dirigida por meu irmo, Richard Civita, especialmente para cuidar desse segmento. S "Bom apetite", que era uma coleo de receitas, chegou a vender 1 milho de exemplares por semana. Foi um feito extraordinrio. Tenho um imenso orgulho do que realizamos. Ns tornamos acessveis  para centenas de milhares de famlias brasileiras obras com uma altssima qualidade grfica e editorial a preos bastante razoveis. Entregamos para elas cultura, informao, divertimento, servio, do Novo Testamento aos maiores romances da histria da literatura, das obras-primas da pintura universal a dicionrios ilustrados. Foi graas ao fantstico xito comercial dos fascculos  e no s revistas em quadrinhos, como alguns pensavam  que a Abril teve capacidade de lanar VEJA e bancar o prejuzo que ela deu nos primeiros anos. 
DINHEIRO - Um parntese. Ganhar dinheiro nunca foi nosso objetivo central.  bvio que voc precisa ter lucro nos seus empreendimentos para no quebrar, poder reinvestir no negcio, crescer e se expandir. Mas a motivao maior de meu pai, que passou isso para mim e eu sempre tentei passar para meus filhos, era criar, fazer, empreender. Tanto que VC levava uma vida relativamente modesta. Ao morrer, tinha um apartamento em So Paulo, outro no litoral, um carro e aplicaes financeiras que, juntamente com as joias de minha me, destinou  Fundao Victor Civita, dedicada  educao. O mais importante  fazer o que voc gosta. Dinheiro  consequncia. Pensar antes no dinheiro, com o nico objetivo de acumular e enriquecer,  um erro fundamental. Se fizer isso, voc acabar perdendo sua alma.
"FAA UMA REVISTA!" - Em 1965, tivemos a ideia de criar uma revista semanal, ilustrada, de assuntos gerais, para ser encartada nas edies de domingo dos grandes jornais brasileiros. Seus leitores a receberiam de graa. Ela seria sustentada pela publicidade. Era algo que j existia nos Estados Unidos e poderia dar certo por aqui. Para o projeto andar, precisaramos de um scio forte no Rio de Janeiro e outro em So Paulo. O Jornal do Brasil, que tinha grande prestgio no Rio, ficou interessado. O Estado de S. Paulo descartou a proposta de imediato. Procurei ento o Octavio Frias de Oliveira, da Folha de S.Paulo, que gostou bastante da ideia e me autorizou a tocar o projeto com sua participao. Comeamos a montar a empresa que editaria a Revista de Domingo  esse era o nome escolhido  e iria vend-la a preo de custo a jornais do pas inteiro. Cada um teria uma participao proporcional da receita publicitria. Fiquei entusiasmado e comecei a contratar as equipes, tanto da rea editorial como da comercial. Quando estava tudo certo e a mquina montada, preparamos um grande evento em que apresentaramos o lanamento para as agncias de publicidade e anunciantes em potencial. Os convites j estavam impressos quando Frias de Oliveira me chama e diz o seguinte: "Pensei melhor no assunto e estou fora. Sinto muito, esse negcio no vai  dar certo". Voltei de l arrasado. Sem a participao de um dos dois principais jornais de So Paulo, o projeto no se sustentaria. Entrei na sala de VC em estado de choque e disse que no sabia o que iria fazer, pois j tinha contratado vrias pessoas. "E agora, o que fao?", perguntei. Ele olhou para mim e respondeu: "Faa uma revista". Assim, na lata! Mas como? "Voc est com tudo andando, faa uma revista." "Semanal?" "No, mensal." Comeamos a pensar juntos: E ali, naquele momento, surgiu a ideia de uma revista que se chamaria REALIDADE. Ela seria outro marco na histria da imprensa brasileira. 
DESAFIANDO TABUS - Estava faltando no Brasil de 1966 uma publicao que abordasse os temas de que ningum tratava. Que desafiasse os tabus e mostrasse a vida real. Veio da o nome REALIDADE. Havia uma cultura hipcrita no pas. No se falava de sexo e de drogas, nem de divrcio e de aborto, muito menos de polmicas religiosas. A revista investiu em grandes reportagens sobre assuntos como esses e vrios outros, que em geral a imprensa no dava ou dava mal: questes cientficas apresentadas em profundidade e rigor, mas traduzidas para o leitor; comportamento, mostrando que o mundo passava por uma revoluo de costumes naqueles efervescentes anos 60; perfis reveladores de personalidades nacionais, dos escritores Jorge Amado e Guimares Rosa aos generais que haviam tomado o poder; retratos da vida brasileira, como a seca e a misria do Nordeste; grandes matrias internacionais; e assim por diante. Tnhamos recrutado uma equipe jovem, brilhante, cheia de gs e inconformista, empenhada em romper limites, descobrir assuntos novos, enfrentar aqueles tabus todos e, enfim, sacudir o jornalismo brasileiro. No era apenas uma boa equipe. Era uma equipe extraordinria. Durante o primeiro ano, eu dirigi pessoalmente a redao. Fazamos longas e animadssimas reunies de pauta. Nossa receita tinha doze matrias por edio. Era uma espcie de smorgasbord, aquele bufe escandinavo em que tem de tudo um pouco. Quantos pratos so? Uns cinquenta. Quantos cada pessoa experimenta? Uma meia dzia. Em uma revista de interesse geral, tambm funciona assim. 
OS MOINHOS - O sucesso da REALIDADE se deve, em boa parte, ao fato de que ela teve coragem de atacar os moinhos, como Dom Quixote no romance de Cervantes. Esses moinhos eram aqueles tabus que ningum abordava. Resultado: chegamos a vender 400.000 exemplares. S na banca! No havia assinaturas. Surgiram as reaes moralistas. Nosso nmero 10, uma edio especial dedicada  mulher brasileira, foi apreendida. Mais tarde, veio a censura. A essa altura, j no restavam muitos moinhos  nossa frente. Aos poucos, a revista perdeu seu impacto. Ela durou at 1976, quando seguia uma receita completamente diferente. Na sua fase inicial, a verdadeiramente gloriosa, ela foi o resultado da conjugao de muitos talentos e uma enorme energia. Eram pessoas com vises de mundo diferentes. Havia uma preponderncia da esquerda, dentro da redao, e alguns jornalistas da equipe chegaram a ter militncia poltica clandestina, com vida dupla, naqueles chamados anos de chumbo. Sinceramente, eu no percebi. S me dei conta mais tarde. Vou admitir: eu no me considerava uma pessoa politicamente ingnua, mas eu era. Depois de ter estudado nos Estados Unidos, onde praticamente no havia esquerdistas nas faculdades que cursei, e de ter trabalhado na revista Time, eu no imaginava que no Brasil ainda existisse gente com um pensamento que eu considerava retrgrado. Minha viso sempre foi liberal em relao aos costumes, mas no plano poltico e econmico j estava convencido de que a livre-iniciativa  o nico caminho para o progresso e o desenvolvimento. No se pode ter, na minha concepo, um pas livre e democrata com capitalismo de estado. A livre-iniciativa faz parte da equao da democracia. Sem livre-iniciativa, no h concorrncia. Sem concorrncia, no h publicidade. E sem publicidade no h imprensa independente. Minha viso do mundo, naquele momento, se encontrou com a de vrios jornalistas da redao e houve, de certo modo, uma convergncia. S agora, mais de quarenta anos depois, vejo isso. Daquela convergncia resultou a REALIDADE. 
"ESTAMOS PRONTOS" - Com o xito da REALIDADE, passei a achar que o pas contava com um nmero suficiente de leitores interessados em uma revista semanal de informaes. E que ns estvamos prontos para faz-la. Tnhamos gente, organizao, distribuio. E recursos. Projetamos uma revista que venderia nas bancas  apenas nas bancas, pois no existiam assinaturas  pelo menos 300.000 exemplares por semana. Em cenrios mais favorveis, a venda poderia chegar a at 500.000 exemplares. Discuti esses estudos com VC, que ficou to entusiasmado quanto eu. "Vamos embora, vamos fazer, chegou o momento", ele finalmente disse. Iniciava-se a longa gestao de VEJA. 
CONFIANA E IGNORNCIA - Tomada a deciso, contratei como diretor de redao o jornalista Mino Carta, que fizera comigo QUATRO RODAS e deixara a Abril para lanar o extinto Jornal da Tarde, do grupo de O Estado de S. Paulo. Fomos visitar juntos as cinco principais revistas de informao da Europa e dos Estados Unidos. Fizemos um estgio em cada uma delas para saber como se organizavam, como funcionavam, como recrutavam pessoas, enfim, fomos aprender. No fim do quinto estgio, o Mino me disse: "Vai ser fcil. Vamos fazer melhor do que eles". Eu duvidei um pouco, pois sabia que a operao seria complexa. Na verdade, nenhum de ns tinha a menor noo do que nos esperava. Mas havia o essencial: nos nossos 30 e poucos anos, estvamos cheios daquela confiana que nasce da ignorncia, de quem no sabe o que vir pela frente. Logo inventei um jeito de recrutar a equipe. Tive a ideia de selecionar pessoas e trein-las em um curso. Escrevi um anncio, que foi publicado em algumas de nossas revistas. O texto descrevia o tipo de jornalista que procurvamos naquele momento e que procuramos at hoje: "Procuramos homens e mulheres inteligentes e insatisfeitos, que leiam muito, sempre perguntem 'por que' e queiram colaborar na construo do Brasil de amanh". Recebemos milhares de currculos. Selecionamos 100 para realizar um curso de trs meses em So Paulo. No final, escolhemos cerca de cinquenta para trabalhar na revista. Preparamos treze nmeros zero. Cada um era uma revista com a cara que achvamos que VEJA iria ter. Guardei todas essas edies, anotadas pgina por pgina. E tenho, naturalmente, a coleo inteira e encadernada da revista, tambm com minhas observaes. Est tudo na biblioteca que montei no mezanino de minha sala na empresa, apenas com obras de assuntos ligados  imprensa e comunicao. Quando eu no estiver mais aqui, essa biblioteca ficar para a Abril. Coloquei isso no meu testamento. 
CAINDO DAS NUVENS - Estvamos to confiantes no xito de VEJA que o nmero de lanamento, com data de capa de 11 de setembro de 1968, teve uma tiragem fantstica de 700.000 exemplares. A edio de estreia se esgotou. A segunda vendeu s a metade. Para encurtar uma histria conhecida: em poucas semanas, estvamos vendendo menos de 100.000 revistas. E perdendo uma enormidade de dinheiro. Recebemos crticas de todos os lados. O leitor imaginava uma coisa, pensando que VEJA fosse uma publicao ilustrada, com matrias pequenas e fotos grandes, e recebeu outra, que se propunha a explicar e analisar os fatos, colocando-os em contexto. De fato, a revista tinha texto de mais e ilustrao de menos. Era pesada, difcil de ler, apertada, feia. Levou um tempo para cair na real. As vendas despencavam sem parar. Com baixa circulao, no atraa publicidade. Assim, sem as duas receitas que se esperavam  venda em bancas e anncios , no havia como cobrir seu alto custo, tanto de papel, impresso e distribuio como de salrios, j que a redao, superdimensionada, reunia mais de 100 pessoas, que ganhavam bastante bem. Estava na cara que, logo de incio, tnhamos um problema de sobrevivncia. Para complicar um jogo to difcil, trs meses depois do lanamento de VEJA foi baixado o Ato Institucional n 5, que endureceu o regime e trouxe a censura. Foi um perodo de trevas. Os censores cortavam matrias inteiras, que ns substituamos por figuras de demnios para tentar mostrar ao leitor que algo deixava de ser publicado contra nossa vontade. 
"QUANDO VAMOS FECHAR?" - Diante desse quadro, a cada semana, nas reunies de diretoria, Gordiano Rossi, scio minoritrio de VC, dizia a mesma coisa: "Senhor Victor, esta revista est perdendo todo o dinheiro que a Abril ganha em suas demais operaes. Minha pergunta : quando vamos fech-la?". Meu pai me olhava e eu dizia: "Preciso de mais trs meses". E assim se repetia na reunio seguinte. VEJA deu enormes prejuzos durante quase sete anos. E VC, talvez lembrando daquele compromisso comigo  de fazer as trs revistas com que eu sonhava ao voltar dos Estados Unidos  ou porque acreditava no projeto, resolveu bancar. Nunca lhe perguntei o motivo de sua deciso. S havia uma salvao: criar um sistema de assinaturas, que garantiria uma circulao fixa e comprovada, atraindo os anunciantes para a revista. A questo  que praticamente no existiam assinaturas no Brasil e os jornaleiros se opunham a elas, com ameaa de boicote nas bancas s publicaes que as implantassem. Fui ao Rio de Janeiro negociar com os jornaleiros, que eram em sua quase totalidade imigrantes italianos, vindos de uma mesma cidade, ao sul de Npoles. Fizeram uma assembleia para ouvir minha proposta. Expliquei que VEJA era um sonho da Abril e que, infelizmente,  aps um investimento vultoso, estvamos numa enrascada da qual s sairamos com a implantao de assinaturas. Prometi que, se aceitassem, no lanaramos assinaturas de nenhuma outra revista no prazo de dez anos. No fim, aceitaram minha proposta, com um aperto de mo. Nada por escrito. Eles cumpriram o combinado, eu tambm. Sempre gostei disso: aperto de mo, a palavra dada, o fio de bigode, olhos nos olhos. Resolvido o impasse no Rio, consegui tambm a autorizao dos jornaleiros de So Paulo. E tratei de montar uma operao para vender 50.000 assinaturas em poucos meses. Fomos vend-las inicialmente em cursinhos de vestibular e na porta de faculdades. No stimo ano de vida, VEJA atingiu o ponto de equilbrio entre receitas e despesas. 
MUDANA DE RUMO - A chegada desse ponto de equilbrio coincidiu com a sada de Mino Carta do cargo de diretor de redao. Nossas relaes estavam desgastadas, eu no estava satisfeito com a linha de vrias matrias e, depois de uma srie de divergncias, percebi que ele estava descontrolado. Propus que tirasse um ano sabtico. Dois ou trs meses depois, ele voltou e disse que queria reassumir. Eu repliquei que, antes disso, haveria acertos a fazer, pois os acordos que tnhamos no estavam sendo cumpridos. Ele resolveu procurar meu pai e, durante a conversa, afirmou o seguinte: "Eu no sei onde vocs estariam se no fosse por mim". Meu pai respondeu assim: "Mino, eu tambm no sei, mas vamos descobrir a partir de amanh". Esse foi o fecho real, muito diferente das verses falsas e caluniosas que ele repete h 38 anos, afirmando mentirosamente que entregamos sua cabea aos militares. Eu assino com meu sangue que fiz o contrrio. Ns sempre o preservamos. Infelizmente, a vida dele parece ter parado em 1975. Como se tivesse morrido. Quando saiu, achava que a revista iria acabar sem ele. Naquele momento, as vendas estavam prximas dos 200.000 exemplares por semana. Em 1995, chegamos a 1 milho de exemplares e em 2013 estamos com 1,3 milho. VEJA se tornou a segunda maior revista semanal de informaes do mundo inteiro, atrs apenas da Time. H quase 45 anos, eu me orgulho de ser o seu editor. 
PRIMEIRO COMPROMISSO - No fomos s meu pai e eu que construmos a Abril, VEJA, EXAME, CLAUDIA e dezenas, centenas de publicaes. Fomos ns e muitas, muitas pessoas. Um monte de gente maravilhosa que conseguimos atrair e se identificou com nossos valores bsicos e nossa misso. Fizemos e estamos fazendo um trabalho muito importante de informar corretamente, de ter um compromisso perene com a verdade, com um esforo permanente de ser justos, equilibrados e ticos. Acima de tudo, nos mantivemos fiis  nossa primeira responsabilidade: com o leitor, com o pas e com a verdade, acima dos governos, dos anunciantes, dos amigos e dos acionistas. Isso explica nossa liderana, o sucesso de nossas publicaes e o que temos de mais importante: nossa credibilidade, mantida com a separao entre a Igreja e o estado, ou seja, o editorial e o comercial, e um absoluto respeito  veracidade dos fatos que apuramos, analisamos e publicamos. 
DOIS LEGADOS - Sendo a imortalidade difcil, j que pouqussimas pessoas so lembradas pelo que fizeram, para o bem ou para o mal, o importante  a satisfao pessoal pelo que voc realizou e deu aos outros. Quando sair de cena. vou deixar duas empresas importantes, a Editora Abril e a Abril Educao, que tm misses e valores claros, com um caminho bem traado. Se isso for mantido  porque  fcil falar e difcil fazer, especialmente quando no h uma famlia envolvida, que queira manter a chama acesa , elas podero sobreviver aos seus fundadores por muitas dcadas. Toro muito para que seja assim. 
SE - Mais do que as escolas e as faculdades que frequentei, minhas maiores influncias foram meus pais e, como leitor onvoro que sempre fui, minhas leituras. Entre elas, acima de todas, a obra de Shakespeare, que conheo bastante bem, e If, o famoso poema do ingls Rudyard Kipling, que me inspirou a fixar valores. Por exemplo, quando ele diz: "If you can dream  and not make dreams your master. / If you can think  and not make thoughts your aim; / If you can meet with Triumph and Disaster / And treat those two impostors just the same" (Na traduo de Guilherme de Almeida: "Se s capaz de pensar  sem que a isso s te atires, / De sonhar  sem fazer dos sonhos teus senhores. / Se encontrando a desgraa e o triunfo conseguires / Tratar da mesma forma a esses dois impostores".) A sabedoria desses versos me ajudou a chegar at aqui e me acompanhou a vida inteira.


5. AVENTURA  DAS ONDAS PARA O TOPO DO MUNDO
A mdica Karina Oliani pilota helicpteros, pratica mais de dez esportes radicais e apresenta um programa de TV. Neste ano, tornou-se a mais jovem brasileira a escalar o Monte Everest.
TATIANA GIANINI

     Quantas profisses e quantas ambies cabem na vida de uma mulher de 31 anos? A mdica paulistana Karina Oliani, a mais jovem brasileira a alcanar o cume do Monte Everest, na Cordilheira do Himalaia, quase viu um dos seus sonhos se derreter a poucos metros do objetivo. Na noite de 16 de maio passado, quando percorria o ltimo trecho da escalada, a temperatura de 40 graus negativos e o vento de mais de 100 quilmetros por hora comearam a congelar seus dois dedos mnimos das mos e o olho esquerdo. Foi quando ela e Pemba Sherpa, o seu guia nepals, avistaram uma luz parada. Era a lanterna de um homem sentado, cabisbaixo, com as duas mos no rosto. O alpinista no falava ingls, perdera a viso e no conseguia descer. Karina, especialista em medicina de emergncia e resgate em reas remotas, decidiu desistir do cume e conduzir o homem  base. Quando outros integrantes da equipe dele apareceram e se encarregaram da situao, ela retomou a ascenso. Foi quando seu olho esquerdo congelou de vez. "Meus clios grudaram e um bloco de gelo obstruiu minha viso", conta Karina. Pemba passou o dedo com forca para quebrar o gelo. mas s provocou dor. Ele ento tirou a mscara de oxignio e lambeu o olho de Karina por trs minutos, descongelando-o e permitindo que as plpebras se movimentassem novamente. Karina chegou ao cume da montanha mais alta do mundo, com 8848 metros de altitude, na sexta-feira 17, s 7h38 da manh, horrio do Nepal, com o auxlio de oxignio engarrafado. O desafio foi o mais difcil j conquistado pela apresentadora do programa Do Jeito Delas, do canal pago OFF. Na temporada deste ano, tambm alcanaram o cume do Everest os brasileiros Jefferson dos Reis, em sua primeira subida, e Rodrigo Raineri, que estabeleceu um recorde nacional ao faz-lo pela terceira vez. "Tenho mais medo de levar uma vida montona do que de me arriscar em novas aventuras", diz a bicampe brasileira de wakeboard, uma verso do esqui aqutico com uma nica prancha nos ps. Karina pratica mais de uma dezena de modalidades de esportes radicais. 
     O prazer pelo risco  um fato da vida de Karina desde a infncia. "Enquanto minhas duas irms brincavam de boneca na casa de madeira do nosso quintal, eu amarrava uma corda na chamin e brincava de escalada", diz. Aos 8 anos, os pais negaram o pedido inesperado da filha para saltar de paraquedas. Ela venceu pela teimosia. Quatro anos depois, lanou-se aos cus em Boituva, no interior de So Paulo. Foi o presente de aniversrio. Trs anos mais tarde, tornou-se salva-vidas voluntria na Austrlia, onde fez intercmbio. De volta ao Brasil, decidiu estudar medicina. Formou-se em 2007 na Faculdade de Medicina do ABC. Em seguida, tirou brev para pilotar helicpteros e fez o curso da Sociedade Mdica do Ambiente Selvagem, dos Estados Unidos. Entre os plantes que d uma vez por semana em um pronto-socorro da capital paulista, Karina se aventura na companhia da irm Nathali, snowboarder profissional, com quem divide o programa de TV. As duas j se jogaram de caiaque de uma cachoeira no Mxico, fizeram salto duplo de um balo e mergulharam com tubares nas Bahamas. 
     O projeto de escalar o Everest surgiu quando Karina foi contratada para ser a mdica da equipe de Richard Bass, o primeiro homem a chegar aos sete picos mais altos de cada continente. Em 2010, Bass voltou ao Nepal para celebrar os 25 anos do feito e Karina integrou a expedio. Durante 112 dias, ela permaneceu no acampamento-base da montanha atendendo alpinistas com edema cerebral ou pulmonar, entre outras doenas provocadas pelo ar rarefeito e pelo frio intenso. A experincia a inspirou a querer subir a montanha e, como Bass, os outros picos mais altos de cada continente. Ela j escalou o Elbrus, na Europa, o Kilimanjaro, na frica, e o Aconcgua, na Amrica do Sul. Os dedos das mos de Karina ainda esto se recuperando do congelamento leve, e ela perdeu 5 dos 59 quilos que tinha distribudos em seu 1,67 metro de altura antes de escalar o Everest. No prdio em So Paulo onde est editando um documentrio sobre sua expedio, ela aproveita os intervalos no trabalho para subir e descer repetidas vezes os vinte andares de escadas. " o melhor treino para o montanhismo", diz Karina, a incansvel.


6. PERFIL  NINA E AS MENINAS
Com ar inocente e ao mesmo tempo sedutor, as bonequinhas de Nina Pandolfo vo cada vez mais longe. A autora se parece com elas. E sabe cobrar direitinho.
MARILIA LEONI

     Suspensas no mundo ideal da pr-puberdade, as meninas contemplam o nada com olhos imensos, cavalgam paves ou caramujos  sim, h um duplo sentido  ou afagam os cabelos transformados em floridos galhos de jabuticabeira. Com sua criadora, Nina Pandolfo, j percorreram treze pases. Em Mumbai, na ndia, a galeria onde desfilavam sua doce e enganadora inocncia pediu que fossem desenhadas na fachada, em tamanho ainda maior que o habitual. Em questo de minutos, surgiram crianas da redondeza para ver a execuo do trabalho  da, foi um passo para aderirem aos desenhos. Na Inglaterra, elas encantaram o galerista Steve Lazarides, o mesmo que descobriu Banksy, o grafiteiro mais famoso (ou insuportvel, depende do ngulo) do pas. Na Esccia, o dono de um castelo medieval quis t-las saltitando sobre as paredes histricas. Entrou para uma turma de apreciadores de arte urbana e de coisas fofas. Uma parede do apartamento do ator Reynaldo Gianecchini e o hall de entrada da casa do empresrio Ablio Diniz foram alegrados por Nina. A apresentadora Eliana tem uma escultura de menina de resina de 1 metro de altura e editou um livro sobre a autora. 
     Carina, hoje com 36 anos, apelidada Nina pela famlia, desenhava desde criana nos cadernos de escola das quatro irms mais velhas e nos panos de cozinha da me. Aos 14, entrou para um curso de comunicao visual e, nele, conheceu o grafite e o namorado Otvio Pandolfo  um dos irmos da hoje badalada dupla de artistas plsticos osgemeos , com quem se casou. At que a fase de muros rabiscados ficasse para trs, substituda pelo "grafite de arte", Nina trabalhou como secretria e telefonista. Pintava e desenhava no quarto, de madrugada, e ia dormir mergulhada no cheiro forte de tinta. 
     Inspiradas no prprio corpo de Nina quando criana, "pequeno e com um cabeo", e nos gibis da Mnica, as lnguidas meninas pertencem a uma espcie de escola de ilustradoras de moda, desenhistas e pintoras que gostam de temas e traos femininos, quase infantis, e de um clima eternamente onrico. Lembram tambm os mangs japoneses, os desenhos protagonizados por garotas de olhos enormes e redondos. De forma menos ostensiva que nos mangs, as meninas s vezes tm um arzinho provocante, com vestidos bem pequenininhos. O universo de delicadezas encobre o trabalho minucioso de desenho e as mltiplas texturas. "O fundo das telas dela tem estampas com figuras detalhadas, todas igualzinhas. Essa tcnica  difcil de ser executada", avalia Dbora Buonano, professora de histria da arte do Centro Universitrio de Belas Artes, de So Paulo. Para fazer esses fundos, Nina usa pincis finssimos, "da grossura do bigode de um gato"  uma comparao precisa, pois o siams Raquim vive enrodilhado em seu pescoo. "s vezes, perco o sono, pensando: 'Eu bem que podia colocar mais uma joaninha naquele fundo'", diz Nina. 
     Comprar um trabalho dela no  coisa de criana. Uma tela em acrlico, vendida neste ano em Londres, saiu por 90.000 reais. Seus quadros so grandes  chegam a 3 metros de altura por 9 de largura , o que, pelas regras atuais do mercado peculiar de arte, d uma bela pincelada no valor. Para pint-los, Nina usa escada, sempre com Raquim ajudando no malabarismo. Meiga como suas meninas, ela gosta de maquiagem, de culos escuros caros e da natureza. Quando sabe que est sendo observada, mostra a lngua e faz careta, expresses que so acentuadas pela falsa covinha do lado esquerdo do rosto, produto de uma pancada numa quina quando ela tinha 5 anos. Caso os desavisados ainda no saibam, fofura no exclui esperteza.


7. ARTIGO  J.R. GUZZO  O ENIGMA DAS ELITES
     A elite brasileira  acusada todo santo dia pelo ex-presidente Lula de ser a inimiga nmero 1 do Brasil  uma espcie de mistura da sava com as dez pragas do Egito, e culpada direta por tudo o que j aconteceu, acontece e vai acontecer de ruim neste pas.  possvel at que tenha razo, pois se h alguma coisa acima de qualquer discusso  a inpcia, a ignorncia e a devastadora compulso por ganhar dinheiro do Errio que inspiram h 500 anos, inclusive os ltimos dez e meio, a conduta de quem manda no pas, dentro e fora do governo. O diabo do problema  que jamais se soube exatamente quem  a elite que faz a desgraa do Brasil. Seria indispensvel saber: sabendo-se quem  a elite, ela poderia ser eliminada, como a febre amarela, e tudo estaria resolvido. Mas continuamos no sabendo, porque Lula e o PT no contam. Falam do pecado, mas no falam dos pecadores; at hoje o ex-presidente conseguiu a mgica de fazer discursos cada vez mais enfurecidos contra a elite, sem jamais citar, uma vez que fosse, o nome, sobrenome, endereo e CPF de um nico de seus integrantes em carne e osso. A fica difcil. 
     Mas a vida  assim mesmo, rica em perguntas e pobre em respostas: a nica sada  partir atrs delas. Na tarefa de descobrir quem  a elite brasileira, seria razovel comear por uma indagao que permite a utilizao de nmeros: as elites seriam, como Lula e o PT frequentemente do a entender, os que votam contra eles nas eleies? No pode ser. Na ltima vez em que foi possvel medir isso com preciso, no segundo turno das eleies presidenciais de 2010, cerca de 80 milhes de brasileiros no quiseram votar na candidata de Lula, Dilma Rousseff: num eleitorado total pouco abaixo dos 136 milhes de pessoas, menos de 56 milhes votaram nela.  gente que no acaba mais. Nenhum pas do mundo, por mais poderoso que seja, tem uma elite com 80 milhes de indivduos. Fica ento eliminada, logo de cara, a hiptese de os inimigos da ptria serem os brasileiros que no votam no PT. 
     As elites seriam os ricos, talvez? De novo, no faz sentido: os ricos do Brasil no tm o menor motivo para se queixar de Lula, dos seus oito anos de governo ou da atuao de sua sucessora. Ao contrrio, nunca ganharam tanto dinheiro como nos ltimos dez anos, segundo diz o prprio Lula. Ningum foi expropriado sequer em 1 centavo, ou perdeu patrimnio, ou ficou mais pobre em consequncia de qualquer ato direto do governo. Os empresrios vivem encantados, na vida real, com o petismo; um dos seus maiores orgulhos  serem "chamados a Braslia" ou alcanarem a graa mxima de uma convocao da presidente em pessoa. No puro campo dos nmeros, tambm aqui, no d para entender como os ricos possam ser a elite to amaldioada por Lula e seus devotos. De 2003 para c, o nmero de milionrios brasileiros (gente que tem pelo menos 2 milhes de reais, alm do valor de sua residncia) s aumentou. Na verdade, segundo estimativas do consrcio Merrill Lynch Capgemini, apoiado pelo Royal Bank of Canada e tido como o grande perito mundial na rea, essa gente vem crescendo cada vez mais rpido. Pelos seus clculos, surgem dezenove novos milionrios por dia no Brasil, o que d quase um por hora, ou cerca de 7000 por ano; em 2011, o ltimo perodo medido, o Brasil foi o pas  que teve o maior crescimento de HNWIs  no dialeto dos pesquisadores, "High Net Worth Individuals", ou "milionrios". O resultado  que h hoje no Brasil 170.000 HNWIs  os 156.000 que havia no levantamento de 2011 mais os 14.000 que vieram se somar a eles, dentro da tal conta dos dezenove milionrios a mais por dia. 
     No d para entender bem essa histria. O nmero de milionrios brasileiros, aps dez anos de governo popular, no deveria estar diminuindo, em vez de aumentar? Deveria, mas no foi o que aconteceu. A sempre citada frota de helicpteros de So Paulo, com 420 aparelhos,  a segunda maior do mundo; no Brasil j so quase 2000, alugados por at 3000 reais a hora. Os 800.000 brasileiros, ou pouco mais, que estiveram em Nova York no ano passado foram os turistas estrangeiros que mais gastaram ali: quase 2 bilhes de dlares. Na soma total de visitantes, s ficaram abaixo de canadenses e ingleses  e seu nmero, hoje,  dez vezes maior do que era dez anos atrs, incio da era Lula. O eixo formado pela Avenida Europa, em So Paulo,  um feiro de carros Maserati, Lamborghini, Ferrari, Aston Martin, Rolls-Royce, Bentley, e por a afora. Ento no podem ser os ricos os cidados que formam a elite brasileira  se fossem, estariam sendo combatidos dia e noite, em vez de viverem nesse clima de refrigrio, luz e paz. 
     Um outro complicador so as ligaes de Lula com a nossa vasta armada de HNWIs, como diriam os rapazes da Merrill Lynch.  um mistrio. Como ele consegue, ao mesmo tempo, ser o generalssimo da guerra contra as elites e ter tantos amigos do peito entre os mais bvios arquiduques dessa mesmssima elite? Ou ser que bilionrios e outros 2 potentados deixam de ser da elite e recebem automaticamente uma carteirinha de "homem do povo"' quando viram amigos do ex-presidente? Para ficar num exemplo bem fcil de entender, veja-se o caso do ex-governador de Mato Grosso Blairo Maggi, uma das estrelas do crculo de amizades polticas de Lula. O homem  o maior produtor individual de soja do mundo, e a extenso das suas terras o qualifica como o suprassumo do "latifundirio" brasileiro.  detentor, tambm, do ttulo de "Motosserra de Ouro", dado anos atrs pelo Greenpeace  grupo extremista e frequentemente estpido, mas que ainda faz a cabea de muita gente boa pelo mundo afora.  claro que no h nada de errado com Blairo: junto com seu pai, Andr, fundador da empresa hoje chamada Amaggi,  um dos heris do progresso do Brasil Central e da transformao do pas em potncia agrcola mundial. Mas, se Blairo Maggi no  elite em estado puro, o que seria? Um pilar das massas trabalhadoras do Brasil? 
     Lula anda de mos dadas com Marcelo Odebrecht, presidente de uma das maiores empreiteiras de obras do Brasil e do vasto complexo industrial que cresceu em torno dela. Ainda h pouco foi fotografado em companhia do inevitvel Eike Batista, cuja fortuna acaba de desabar para meros 10 bilhes de dlares, numa visita a um desses seus empreendimentos que nunca decolam; foi seu advogado, logo em seguida, para conseguir-lhe um ajutrio do governo.  um fato inseparvel de sua biografia, desde o ano passado, o beija-mo que fez a Paulo Maluf, hoje um aliado poltico com direito a pedir cargos no governo  assim como Maggi, que ainda recentemente foi cotado para ser nada menos que o ministro da Agricultura de Dilma. Dize-me com quem andas e eu te direi quem s, ensina o provrbio. Talvez no d, s por a, para saber quem  realmente Lula. Mas, com certeza, est bem claro com quem ele anda. 
     As classes que Lula e o PT descrevem como a "elite brasileira" no so suas amigas s de conversa  esto sempre prontas para abrir o bolso e encher de dinheiro a companheirada. Nas ltimas eleies presidenciais, presentearam a candidata oficial Dilma Rousseff com quase 160 milhes de reais  mais do que deram a todos os outros candidatos somados. H de tudo nesses amigos dos amigos: empreiteiras de obras,  claro, banqueiros de primeira linha, frigorficos empenhados at a alma no BNDES, siderrgicas, fbricas de tecidos, indstrias metalrgicas, mineradoras.  o que a imprensa gosta de chamar de "pesos-pesados do PIB". Ningum, nessa turma, faz mais bonito que as empreiteiras, que dependem do Tesouro Nacional como ns dependemos do ar. Foram as maiores doadoras privadas s eleies municipais do ano passado: torraram ali quase 200 milhes de reais, e o PT foi o partido que mais recebeu. Ficou com cerca de 30% da bolada distribuda pelas quatro maiores empreiteiras do pas, e junto com seu grande scio da "base aliada", o PMDB, raspou metade do dinheiro colocado nesse tacho. Todo mundo sabe quem so: Andrade Gutierrez, Queiroz Galvo, OAS e Camargo Corra. Mas esses nomes no resolvem o enigma que continua a ocultar a identidade dos membros da elite. Com certeza, nenhum dos quatro citados logo acima pertence a ela, j que do tanto dinheiro assim ao ex-presidente, seu partido e seus candidatos. Devem ser, ao contrrio, a vanguarda das classes populares. 
     Restariam como membros da elite, enfim, os Inconformados" com o fato de que "um operrio chegou  Presidncia" ou que a "classe C" melhorou de vida. Mais uma vez, no d para levar a srio. Por que raios essa gente toda estaria inconformada, se no perdeu nada com isso? Qual diferena prtica lhes fez a eleio de um presidente de origem operria, ou por que sofreriam vendo um trabalhador viajar de avio? Num pas com 190 milhes de habitantes,  bvio que h muita gente que detesta o ex-presidente, ou simplesmente no gosta dele. E da? Que lei os obriga a gostar? Acontece com qualquer grande nome da poltica, em qualquer lugar do mundo. Ainda outro dia, milhares de pessoas foram s ruas de Londres para festejar alegremente a morte da ex-lder britnica Margaret Thatcher  que j no estava mais no governo havia 23 anos.  a vida. Por que Lula e seus crentes no se conformam com isso e param de encher a pacincia dos outros com sua choradeira sem fim? 
     O resumo dessa pera  uma palavra s: hipocrisia. Lula bate tanto assim na "elite" para esconder o fato de que ele  hoje, na vida real, o rei da elite brasileira. O ex-presidente diz o tempo todo que saiu do povo. De fato, saiu  mas depois que saiu no voltou nunca mais. Falemos srio: ningum consegue viver todos os dias como rico, viajar como rico, tratar-se em hospital de rico, ganhar como rico (200.000 reais por palestra, e j houve pagamentos maiores), comer e beber como rico, hospedar-se em hotel de rico e, com tudo isso, querer que os outros acreditem que no  rico. Lula exige jato particular para ir s suas conferncias e Johnnie Walker Rtulo Azul no cardpio de bordo. Quando tem problemas de sade, interna-se no Hospital Srio-Libans de So Paulo, um dos mais caros do mundo. Sempre chega ali de helicptero. Vive cercado por um regimento de seguranas que s o tpico magnata brasileiro costuma ter. O ex-presidente sempre comenta que s falam dessas coisas porque "no admitem" que um "operrio" possa desfrutar delas. Mas onde est o operrio nisso tudo?  como se o banqueiro Amador Aguiar, que foi operrio numa grfica do interior de So Paulo e ali perdeu, exatamente como Lula, um dos dedos num acidente com a mquina que operava, continuasse dizendo, sentado na cadeira de presidente do Bradesco, que era um trabalhador manual. 
     Lula no trabalha, no no sentido que a palavra "trabalho" tem para o brasileiro comum, desde os 29 anos de idade, quando virou dirigente sindical e ganhou o direito legal de no comparecer mais ao servio. Est a caminho de completar 68 e, depois que passou a fazer poltica em tempo integral, nunca mais tomou um nibus, fez uma fila ou ficou sem dinheiro no fim do ms. Melhor para ele,  claro. Mas a vida que leva  igualzinha  de qualquer cidado da elite. O centro da questo est a, e s a. Todo o resto  puro conto do vigrio.


8. PALEONTOLOGIA  O LEITE NAS CAVERNAS
Estudo que revela por quanto tempo uma me neandertal amamentava seu beb  uma pista para saber se existe um perodo ideal de aleitamento entre ns.

     A durao ideal do perodo de amamentao dos bebs  motivo de controvrsia. Nem as mes nem os pediatras tm uma resposta definitiva. Uma dvida  se existiu um tempo de amamentao estabelecido pela natureza e que teria se perdido com a civilizao. Uma pista do que poderia ser considerada a ordem natural vem do estudo de um dente fossilizado de uma criana neandertal. O Homo sapiens e o Homo neanderthalensis, extinto h 30000 anos, so espcies geneticamente to parecidas que se pode supor que tinham comportamento similar em relao aos cuidados maternos. A equipe de cientistas da Universidade Harvard e de Sydney responsvel pela pesquisa, divulgada h duas semanas pela revista Nature, concluiu que a criana se alimentou exclusivamente do leite materno nos primeiros sete meses de vida e do leite materno combinado a outros alimentos nos sete meses subsequentes. Depois disso, deixou de receber leite materno. A concluso se baseou na anlise dos nveis de brio, um elemento qumico, preservados no molar. A distribuio do brio nos dentes das crianas e de filhotes de outros primatas indica as mudanas alimentares a que foram submetidos. H a uma coincidncia com a medicina moderna: o tempo de alimentao com leite materno do beb neandertal  bastante semelhante quele recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria. 
     "A anlise de um nico dente no nos permite generalizar para toda a espcie, mas nos d bons indcios sobre os hbitos alimentares dos neandertais". disse a VEJA Manish Arora, da Universidade de Sydney e coordenador da pesquisa.  bem possvel que o padro de amamentao identificado se estendesse por toda a espcie. Isso porque todos os mamferos tm seus perodos prprios e fixos de amamentar os filhotes   exceo do ser humano. Em seu ambiente natural, os chimpanzs, nossos parentes mais prximos, que compartilham conosco 98% do DNA, s desmamam depois de cinco anos. Os cavalos, em um ano e meio, e os ces, em 45 dias. Com o homem  diferente. O perodo de amamentao  determinado no apenas por padres estabelecidos pela evoluo, mas tambm por fatores culturais. Muitos mdicos acham que um ano  o perodo ideal. Outros defendem o desmame aps seis meses. Em algumas culturas orientais a amamentao se estende por quatro ou cinco anos. 
     Em geral, os primatas, como os demais mamferos, desmamam os filhotes quando eles atingem um tero do peso que tero quando adultos. Se essa regra fosse aplicada aos seres humanos, o perodo de amamentao ficaria entre quatro e sete anos. Por isso, nessa questo, at agora a humanidade s podia olhar para si prpria. O estudo com o dente do neandertal abre nova perspectiva. O perodo de amamentao praticado pelos primos distantes talvez possa, na sociedade moderna, ser considerado o mais natural. 
CAROLINA MELO


9. RELIGIO  O RECADO EST DADO
Ao evocar sucessivas vezes a figura do anjo rebelde em suas homilias, o papa Francisco passa a mensagem de que o mal est dentro da Igreja.
ADRIANA DIAS LOPES

Satans  um mau pagador, engana-nos sempre, sempre"
14 de maio, em missa para o clero na capela da Casa Santa Marta, no Vaticano.

"Jesus, que nos resgatou do mundo, nos escolheu: pura graa! Com sua morte, sua ressurreio, nos libertou do poder do mundo, do poder do diabo, do poder do prncipe deste mundo"
4 de maio, em missa para o clero na capela da Casa Santa Marta, no Vaticano. 

"Nossa alegria nasce do fato de sabermos que, com Jesus, nunca estamos sozinhos, mesmo nos momentos difceis, mesmo quando o caminho da vida  confrontado com problemas e obstculos que parecem insuperveis... e h tantos! E nesses momentos vem o inimigo, vem o diabo, muitas vezes disfarado de anjo, e insidiosamente nos diz a sua palavra. No o escuteis! Sigamos Jesus!
24 de maro, em missa para os fiis, na Praa de So Pedro, no Vaticano.

     Era 19 de maio, perto do meio-dia, na Praa de So Pedro, corao do Vaticano. O papa Francisco encerrava a missa de Pentecostes, uma das celebraes mais tradicionais da igreja crist, na qual se comemora a descida do Esprito Santo sobre os apstolos. O pontfice seguiu na direo de um grupo de doentes em cadeira de rodas que assistiram  cerimnia, reunidos prximo  Baslica de So Pedro. O papa os abenoa, pondo as mos sobre a cabea dos devotos. Abruptamente, ao toque delicado de Francisco, um jovem escancarou a boca e soltou um grunhido de longos treze segundos. O papa manteve a feio carinhosa, esperou o rapaz silenciar e continuou a abenoar outros fiis. Algumas horas depois, o canal de televiso dos bispos italianos divulgou um vdeo afirmando que o que havia ocorrido ali fora um exorcismo. O acontecimento invadiu as pginas e os programas de televiso da imprensa europeia. No dia seguinte, o Vaticano desmentiu a TV dos bispos: "O papa no teve a inteno de fazer nenhum exorcismo, mas simplesmente de rezar por uma pessoa sofredora que lhe havia sido apresentada". A discusso em torno do suposto ritual s ganhou fora por uma caracterstica do pontificado de Francisco  as constantes referncias ao diabo em suas homilias. 
     Em pouco menos de trs meses de papado, Francisco falou pelo menos quatro vezes do demnio em missas. O mais curioso (e significativo), porm,  que trs das menes foram proferidas em celebraes realizadas para os membros da Cria Romana, em cerimnias internas no Vaticano. A primeira citao foi um dia depois de sua eleio, aos cardeais que participaram do conclave, na Capela Sistina: "Quando no se confessa Jesus Cristo, se confessa o mundanismo do diabo, o mundanismo do demnio". Nas outras duas ocasies, Francisco falou a bispos, padres e cardeais na capela da Casa Santa Marta, onde os papas celebram missa diariamente. Para quem se dedica a decifrar as mensagens papais, h pouca dvida de que Francisco se referia s mazelas que envenenam a Cria e que levaram Bento XVI  renncia. "O papa reforou que o combate ao mal tem de comear dentro da prpria Cria e ele tem  ser banido para garantir a sobrevivncia da Igreja", diz Afonso Soares, telogo da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo e autor do livro De Volta ao Mistrio da Iniquidade. 
     E, por falar no prncipe deste mundo, no anjo decado, h quem leia nas falas do papa um recado mais temporal aos membros da Cria. Francisco pode estar ensaiando uma mudana radical de nomes e de cargos. Especialistas nas questes do Vaticano do como certo o desmembramento do cargo mximo da Cria, o de secretrio de Estado, hoje ocupado pelo poderoso cardeal Tarcsio Bertone. O posto seria dividido em trs, dando-se preferncia a personalidades do clero menos ligadas ao carreirismo e mais comprometidas com a misso pastoral da Igreja Catlica. Essa e outras mudanas devem ocorrer ainda no primeiro ano do pontificado de Francisco, possivelmente por meio de um novo conclio. 
     O cafuu, o tinhoso, o coisa-ruim era figurinha fcil nos sermes dos papas e bispos. Ele era citado sempre que os hierarcas da Igreja queriam assustar os fiis ou, durante a Inquisio, justificar torturas e execues de hereges. A partir das modernizaes trazidas pelo Conclio Vaticano II, na dcada de 60, o sarnento perdeu relevncia. "Deus nos reconciliou consigo e uns com os outros e nos arrancou da servido do demnio e do pecado", diz um dos documentos mais influentes do Conclio Vaticano II, o Gaudium et Spes (Alegria e Esperana). Francisco  o primeiro pontfice nos ltimos cinquenta anos a mencionar o moleque de forma to enftica e repetida. Bento XVI costumava cit-lo com erudio e sempre com a ajuda de eufemismos. "Diz-se 'no e renuncia-se s tentaes, ao pecado, ao diabo. Conhecemos bem essas coisas, mas, talvez porque as ouvimos demasiadas vezes, essas palavras no nos dizem muito. Ento devemos aprofundar um pouco o contedo desses 'nos'. A que dizemos 'no' ? S assim podemos compreender ao que desejamos dizer 'sim'", afirmou Bento XVI em janeiro de 2006. A probabilidade de escapar da carapua em uma mensagem como essa  grande. Com Francisco  diferente. Seu estilo no deixa dvida. O recado est dado.


